Economia

O segredo que ninguém conta: por que 30 ações podem ser pior que 10

Gráfico comparando diversificação de 10 vs 30 ações com linhas de correlação de risco
A quantidade de ações não garante diversificação real se os ativos se movem juntos.

Ter 30 ações na carteira não garante diversificação real. Um investidor com dez papéis bem escolhidos pode estar menos exposto a riscos sistêmicos do que outro com trinta ativos que se movem juntos. A diferença não está na quantidade, mas na correlação entre os riscos que cada empresa carrega.

A matemática por trás do mito

Na década de 1950, Harry Markowitz provou que o risco de um portfólio não é a soma dos riscos individuais. O que define a volatilidade do conjunto é o quanto os preços sobem ou caem no mesmo momento. Se você possui cinco bancos, um sexto banco pouco altera seu perfil de risco: todos sofrem com inadimplência, juros altos ou recessão simultaneamente.

Adicionar uma empresa de um setor sem relação — como tecnologia ou saúde — tende a reduzir a instabilidade da carteira de forma muito mais eficaz do que simplesmente aumentar o número de tickers do mesmo segmento.

Existe um “número mágico” de ações?

Estudos clássicos tentaram quantificar o ideal. Em 1968, Evans e Archer mostraram que a maior parte da redução de risco específico ocorre nas primeiras adições. Quase duas décadas depois, Meir Statman estimou que 30 a 40 ações seriam suficientes para uma diversificação “adequada” sob hipóteses específicas.

Pesquisas mais recentes, porém, indicam que esse número pode ser maior dependendo do mercado, do período analisado e da tolerância a risco. Não há um patamar universal. O benefício marginal é decrescente: a segunda ação cortam mais risco que a vigésima, desde que tenham exposições comparáveis.

O inimigo invisível: concentração disfarçada

O número bruto de ativos esconde a realidade dos pesos. Imagine duas carteiras com dez empresas cada:

  • Carteira A: Cada posição representa 10% do capital. Número efetivo = 10.
  • Carteira B: Uma ação concentra 55%, as outras nove dividem o resto. Número efetivo ≈ 3.

Embora tenham a mesma contagem de tickers, a Carteira B comporta-se como se tivesse apenas três posições. Essa métrica — baseada no índice de Herfindahl — ignora correlações, mas expõe o perigo de achar que “tenho muitas ações” enquanto uma única decisão decide o destino do patrimônio.

Fronteiras que não protegem: risco Brasil vs. risco Global

Diversificar setores no Brasil ainda deixa o investidor refém de variáveis locais: taxa Selic, câmbio, risco fiscal, agenda regulatória. Uma carteira com 40 empresas nacionais de setores distintos continua exposta ao “fator Brasil”.

Incluir ativos internacionais abre exposição a outras economias, moedas e setores inexistentes na B3. Porém, crises globais — como 2008 ou 2020 — derrubam mercados sincronizados. A geografia dilui risco idiossincrático, não o risco sistemático mundial.

Quando diversificar demais vira problema

Acumular 60, 80 papéis cria dois gargalos práticos:

  • Acompanhamento: torna-se inviável monitorar fundamentos, resultados e governança de dezenas de companhias.
  • Diluição de acerto: posições mínimas (0,5% a 1%) fazem com que uma tese brilhante mal mova a agulha do portfólio.

Fundos e ETFs resolvem isso com gestão profissional e escala. Para o stock picker individual, porém, cada nova inclusão deve justificar a complexidade extra.

A pergunta que muda tudo

Antes de comprar mais um ticker, faça três perguntas objetivas:

  1. Se houver recessão, choque de juros ou queda de commodities, quantas empresas da minha carteira vão sangrar juntas?
  2. Essa nova ação reduz a dependência de algum setor, país ou empresa específica?
  3. Os drivers de resultado dela são genuinamente diferentes dos que já possuo?

Essas indagações valem mais do que perseguir uma meta arbitrária de quantidade.

Carteira diversificada ≠ Patrimônio diversificado

Um investidor pode ter 40 ações e ainda concentrar 100% do patrimônio em renda variável. O risco específico caiu, mas o risco de classe de ativo permanece inteiro. Uma queda de 30% no Ibovespa afeta todo o capital, independentemente de quantos tickers existam na custódia.

A diversificação completa exige olhar para fora da bolsa: renda fixa, imóveis, moedas fortes, ativos reais. A quantidade adequada de ações depende, portanto, de quatro variáveis: pesos relativos, correlações reais, mercados representados e sua capacidade de gestão ativa.

O que observar daqui para frente

Monitore a correlação rolante entre seus maiores setores — ela costuma subir justamente nas crises, quando a proteção mais faz falta. Revise trimestralmente o número efetivo de posições; se cair abaixo de 8 a 10, a concentração voltou a ditar as regras. E lembre-se: diversificar não é colecionar tickers. É garantir que poucos cenários adversos não decidam o futuro do seu capital.