Economia

Lula repete 2022 e faz mistério sobre a Fazenda: o que muda agora?

Presidente Lula em reunião no Palácio do Alvorada sobre Ministério da Fazenda
Lula mantém mistério sobre futuro ministro da Fazenda, repetindo estratégia de 2022.

O presidente Lula decidiu não decidir — pelo menos por enquanto. Assim como na transição de 2022, os nomes cotados para o Ministério da Fazenda circulam livremente no mercado e na imprensa, enquanto o Palácio do Planalto mantém o silêncio oficial.

A diferença é que, há dois anos, o anúncio de Fernando Haddad saiu 40 dias após a eleição. Desta vez, não há data no calendário.

O roteiro conhecido: reunião no Alvorada e economistas ouvidos

Nesta semana, Lula recebeu economistas e ministros no Palácio da Alvorada. Estavam lá nomes como Geraldo Alckmin, Rafael Fonteles, Dario Durigan e Bruno Moretti. O formato foi idêntico ao de 30 de novembro de 2022.

Naquela ocasião, o presidente ouviu André Lara Resende, Nelson Barbosa, Guilherme Mello, Pérsio Arida e Gabriel Galípolo. Galípolo era cotado para o BNDES — o banco acabou nas mãos de Aloizio Mercadante.

Relatos de ambas as reuniões coincidem: não houve decisões, apenas diálogo. Lula quis uma avaliação ampla do cenário, dos desafios e das condições para o crescimento.

Nomes na bolsa de apostas: quem está no radar

O mercado especula sobre cinco possibilidades principais para comandar a equipe econômica:

  • Fernando Haddad — atual ministro, permanece como opção de continuidade
  • Geraldo Alckmin — vice-presidente e ministro da Indústria, tem trânsito no Congresso
  • Rafael Fonteles — governador do Piauí, economista de formação, visto como nome técnico
  • Dario Durigan — secretário-executivo da Fazenda, conhece a máquina por dentro
  • Bruno Moretti — assessor especial da Presidência, articulador político

Em 2022, a definição saiu em 9 de dezembro. Lula havia vencido no dia 30 de outubro. O anúncio veio após a viagem à COP do Egito, onde Haddad acompanhou o presidente.

O fator COP: viagem à Turquia pode ser o novo prazo

Lula embarca nos próximos dias para a COP na Turquia. Em 2022, a viagem ao Egito serviu como cenário para o acerto final com Haddad. Assessores palacianos admitem, em conversas reservadas, que o deslocamento internacional costuma criar o isolamento necessário para decisões de peso.

Mas há uma variável nova: o governo não é mais “novo”. O frescor da transição deu lugar a um mandato em andamento, com base parlamentar negociada, arcabouço fiscal aprovado e uma equipe econômica já testada.

O debate que não muda: ajuste versus social

A polarização interna no PT e na esquerda segue a mesma. De um lado, a defesa do ajuste das contas públicas como condição de credibilidade. Do outro, a pressão por expansão de políticas sociais, bandeira histórica do partido.

Em 2022, artigos na Folha assinados por integrantes da esquerda falavam em “lutar contra a cilada do ajuste fiscal”. Hoje, o vocabulário mudou, mas a tensão estrutural persiste — agora com o arcabouço fiscal em vigor e metas de resultado primário a cumprir.

O que observar daqui para frente

Três sinais podem antecipar o desfecho nas próximas semanas: a agenda de Lula na Turquia (reuniões bilaterais costumam abrir janelas para conversas decisivas), eventuais vazamentos seletivos sobre “preferência do presidente” na imprensa amiga e a reação do mercado a cada nome ventilado — o dólar e a curva de juros funcionam como termômetro em tempo real.

Se o padrão de 2022 se repetir, a definição virá logo após o retorno da COP. Mas, sem a urgência de uma transição, Lula pode esticar o mistério até o fim do ano. O custo político da demora, esse, será medido nas expectativas de inflação e nas projeções de crescimento para 2025.