Economia

F1 fica em Interlagos até 2035: o que muda para o negócio do esporte

Autódromo de Interlagos com carros de Fórmula 1 em alta velocidade durante Grande Prêmio do Brasil
Fórmula 1 confirma permanência em Interlagos até 2035, garantindo impacto econômico bilionário para São Paulo

A Fórmula 1 confirmou a permanência no Autódromo de Interlagos por mais cinco anos, estendendo o vínculo até 2035. O anúncio, feito neste sábado (7), blinda a principal vitrine internacional de São Paulo e garante previsibilidade para uma cadeia econômica que movimenta centenas de milhões a cada edição. Mas a renovação esconde uma disputa silenciosa por investimentos que pode redesenhar o calendário da categoria na América do Sul.

O contrato que vale mais que a corrida

O acordo anterior expirava em 2030. A extensão antecipada não foi apenas um gesto de boa vontade: ela permite que a Prefeitura e os promotores planejem obras de infraestrutura de longo ciclo, exigidas pelo novo padrão da Liberty Media. Sem a assinatura, Interlagos corria o risco de perder espaço para circuitos de rua ou praças recém-construídas no Oriente Médio e nos EUA.

Stefano Domenicali, CEO da F1, foi direto ao ponto: o Brasil representa história e, principalmente, audiência jovem e feminina — dois pilares da estratégia comercial atual da categoria. Os números divulgados pela própria organização mostram 5,5 milhões de seguidores no país, com 41% abaixo dos 35 anos e 44% do público feminino.

Impacto direto na economia paulistana

A edição de 2025 recebeu 303 mil pessoas no fim de semana, alta de 4% sobre 2024. Cada espectador injeta recursos em hotelaria, mobilidade, gastronomia e varejo. A ocupação hoteleira na zona sul chega a 95% nas datas do evento, com diárias médias 60% acima do normal.

  • Público 2025: 303 mil pessoas
  • Crescimento YoY: 4,1%
  • Perfil: 41% têm menos de 35 anos
  • Engajamento digital: 5,5 milhões de seguidores

Esses dados transformam o GP em um ativo de marketing territorial. Para investidores, a renovação sinaliza estabilidade regulatória e fluxo de caixa recorrente para os operadores de hospitalidade e bilheteria premium.

O custo da modernização e quem paga a conta

A renovação prevê “continuidade dos investimentos da Prefeitura”. Na prática, significa reformas em boxes, paddock, áreas de hospitalidade e sistemas de drenagem — itens cobrados pela FIA para manter o grau 1 de homologação. O valor não foi divulgado, mas o pacote anterior, concluído para 2024, superou R$ 100 milhões entre recursos municipais e privados.

Alan Adler, CEO do GP de São Paulo, admitiu que a modernização é condição sine qua non. “Não basta ter história; a F1 exige instalações de primeiro mundo para equipes, patrocinadores e transmissão”, resumiu. A contrapartida é a manutenção de um evento que coloca a cidade em 190 países ao vivo.

Por que o Rio ficou de fora (de novo)

Domenicali descartou a hipótese de um segundo GP brasileiro no Rio de Janeiro. A categoria prioriza qualidade de infraestrutura e segurança operacional sobre expansão geográfica. O projeto de Deodoro, ventilado em gestões anteriores, não avançou nas garantias financeiras e ambientais exigidas.

Essa decisão concentra recursos e atenção em Interlagos, evitando a cannibalização de patrocínios e público. Para o mercado, significa um ativo único, sem concorrência interna por verbas de marketing esportivo.

O que observar daqui para frente

O próximo marco não é 2035, mas 2026: a entrada do novo regulamento de motores e a estreia da Audi (com Gabriel Bortoleto) e da Cadillac elevam o apelo comercial. A chegada de Rafael Câmara, 34º brasileiro na F1, neste domingo (8), reforça o pipeline de talentos que sustenta o interesse local.

Empresários do setor de eventos e hospitalidade devem monitorar o cronograma de licitações para obras no autódromo — previstas para começar ainda no segundo semestre — e a negociação dos direitos de transmissão para o ciclo 2026-2030. A renovação garante o palco; a rentabilidade dependerá de como a cadeia privada vai ocupar as novas estruturas.