Justiça

CBF promete inclusão, mas zera verba para diversidade; veja o que muda

Sede da CBF com símbolo de diversidade riscado, representando corte de verba para observatórios de LGBTfobia e racismo
CBF zera verba para observatórios de diversidade apesar de promessas de inclusão do presidente Samir Xaud

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) interrompeu o financiamento dos dois principais observatórios independentes que monitoram LGBTfobia e racismo no esporte. A decisão ocorre meses após o presidente Samir Xaud assumir o cargo prometendo fortalecer pautas de inclusão.

O corte atinge diretamente a publicação de anuários técnicos que servem de base para políticas públicas e punições. Entenda os bastidores da ruptura e o que está em jogo para o próximo campeonato.

O e-mail que encerrou seis anos de parceria

Em 2022, o Coletivo de Torcidas Canarinhos LGBTQ+ lançou o primeiro Anuário do Observatório da LGBTFobia. O projeto cresceu: saiu do custeamento parcial para o financiamento total pela CBF na gestão anterior. Havia até negociação para transformar a colaboração em contrato fixo, com criação de política nacional de diversidade e rede de observadores.

Com a posse de Samir Xaud em maio de 2025, o tom mudou. O coletivo recebeu um e-mail oficial informando que a entidade “não dispõe mais de orçamento neste ano destinado a patrocínio de projetos executados por terceiros”. O documento reconhece a relevância do trabalho, mas fecha a porta para o anuário de 2026 e para eventos como o Festival LGBTricolor.

Versões opostas sobre prestação de contas

A CBF justifica a pausa alegando que, após o último repasse, não recebeu “projeto formal com escopo aceitável, nem prestação de contas detalhada”. O coletivo nega categoricamente. Onã Rudá, fundador do grupo, afirma que todas as demandas foram atendidas e aponta um “recuo na temática LGBTQ+ no futebol brasileiro”.

O impasse deixa o anuário de 2026 sem data para sair. A publicação costumava sistematizar denúncias, mapear iniciativas de inclusão e pressionar por respostas institucionais.

Observatório Racial: 12 anos de história sem renovação

O cenário se repete no Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Há 12 anos a entidade compila episódios de racismo — inclusive envolvendo atletas brasileiros no exterior — e acompanha os desdobramentos judiciais e esportivos de cada caso.

Após quatro anos de apoio contínuo, o acordo encerrou em 2024 e não foi renovado pela nova diretoria. A diferença aqui é o tom: ambos os lados classificam a relação como “boa”. A CBF confirmou presença em ação conjunta no Dia da Consciência Negra, mas o relatório referente a 2025 será lançado na Federação Gaúcha sem um real sequer da confederação.

Discurso de posse versus execução orçamentária

O contraste entre a retórica e a planilha de custos chama a atenção:

  • Maio/2025 (Posse): Xaud cita “compromisso com a inclusão e a diversidade”, promete retomar a Taça Indígena e dar protagonismo à sustentabilidade.
  • Junho/2025 (Dia do Orgulho): Site da CBF publica frase do presidente: “A promoção da diversidade é pauta fundamental… Já estamos em contato com o Coletivo Canarinhos para trabalhar juntos”.
  • Segundo semestre: Contatos cessam, e-mails negam verba, projetos entram em “análise” indefinida.

A entidade responde que está “criando estruturas e processos para avaliar e conduzir projetos”. Enquanto a nova governança não sai do papel, o monitoramento independente fica descoberto.

O que observar daqui para frente

O vácuo deixado pela CBF transfere para federações estaduais e clubes a responsabilidade de financiar ou replicar o trabalho de inteligência de dados. Historicamente, sem o selo e o recurso da confederação, a capilaridade das denúncias cai e a pressão por punições exemplares arrefece.

Fique atento a dois movimentos: a implementação real da “nova estrutura de análise” prometida pela CBF e a capacidade dos observatórios de se manterem independentes via editais privados ou leis de incentivo. O próximo anuário — se sair — será o termômetro se o futebol brasileiro aprendeu a caminhar com as próprias pernas no combate ao ódio.