Saúde

Câncer de mama em homens: o silêncio que leva 44% ao estágio avançado

Paulo Marchesin, sobrevivente de câncer de mama masculino, palestrante em evento corporativo
Paulo Marchesin compartilha sua experiência para combater o preconceito sobre câncer de mama em homens

Paulo Marchesin, analista de RH de Piracicaba, descobriu um câncer de mama aos 43 anos depois de ignorar os sinais por doze meses. Hoje, treze anos após o tratamento, ele roda empresas e escolas para provar que a doença não tem gênero — e que o preconceito mata mais que o tumor.

O desconforto começou como uma fisgada no mamilo esquerdo. Camisas passaram a machucar. Ainda assim, Marchesin se automedicou por um ano até a dor se tornar insuportável. A biópsia revelou grau quatro: o tecido e a glândula do lado esquerdo precisaram ser removidos de imediato, e a glândula direita foi retirada preventivamente.

O ano perdido entre o primeiro sintoma e o diagnóstico

Onze meses de analgésicos e esperança. Esse foi o intervalo entre a “agulha no mamilo” e a consulta com o mastologista. Quando o laudo chegou, a quimioterapia semanal durou um ano inteiro. Marchesin credita a fé pelo equilíbrio durante o tratamento, mas reconhece: o tempo perdido não volta.

“Se tem algo estranho no seu corpo, algo existe”, resume ele hoje. A frase virou mantra nas palestras que ministra durante o Outubro Rosa e o Novembro Azul. O recado é direto: toque-se, olhe-se, procure um médico.

Números que expõem o abismo do diagnóstico tardio

Dados da Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) mostram um cenário alarmante apenas no estado de São Paulo:

  • 87 homens diagnosticados em 2026
  • 44% dos casos já em estágios avançados nos hospitais paulistas
  • Entre mulheres, o índice de diagnóstico tardio cai para 33%
  • O tumor masculino representa cerca de 1% de todos os cânceres de mama

A oncologista Talita Coelho explica que a raridade estatística cria uma armadilha psicológica. “O homem não pensa que vai ter a doença. Não há rastreio populacional, não há autoexame cultural. O sintoma aparece, ele associa a outra coisa, posterga a consulta. Quando chega ao consultório, o tumor já cresceu.”

Genética e acaso: o que a ciência sabe até agora

Nem todo caso carrega mutação hereditária. Segundo a especialista, muitas ocorrências são esporádicas — surgem sem histórico familiar evidente. Isso torna a atenção aos sinais corporais ainda mais decisiva, já que a prevenção baseada apenas em genética deixaria a maioria dos homens descoberta.

O tratamento segue protocolos semelhantes aos femininos: cirurgia, quimioterapia, radioterapia e, quando indicado, hormonioterapia. A diferença está no ponto de partida: elas costumam descobrir cedo; eles, tarde.

Sinais que nenhum homem deve ignorar

  • Nódulo ou endurecimento na região mamária ou axilar
  • Retração ou inversão do mamilo
  • Secreção espontânea (especialmente sanguinolenta)
  • Vermelhidão, descamação ou ferida que não cicatriza
  • Dor persistente em um ponto específico

Marchesin repete em cada palestra: a camisa que machucava foi o aviso final. O corpo avisou antes. Ele não ouviu.

O que observar daqui para frente

A inclusão do homem nas campanhas de conscientização ainda é tímida. Não existe programa público de rastreio para a população masculina, e a vergonha de procurar um mastologista persiste. Enquanto isso, a estatística de 44% em estágio avançado dificilmente cairá.

Para o profissional de saúde ou gestor de benefícios corporativos, a lição prática é clara: inserir a saúde da mama masculina nos programas de check-up executivo e nas campanhas internas de prevenção. Um exame clínico rápido durante a consulta de rotina pode encurtar em meses o caminho até o diagnóstico — e, no caso do câncer, meses significam sobrevida.