Paulo Marchesin sentiu uma fisgada no mamilo esquerdo e achou que passaria. Treze anos depois, ele percorre empresas contando como a automedicação quase lhe custou a vida. O analista de RH, morador de Piracicaba (SP), descobriu um câncer de mama masculino aos 43 anos — já no estágio quatro.
O sintoma que não era “nada”
A sensação era de uma agulha cravada no mamilo. Camisas começaram a machucar. Mesmo assim, Marchesin passou cerca de doze meses tomando remédios por conta própria, adiando a ida ao mastologista. Quando procurou ajuda, a biópsia confirmou o tumor avançado.
A cirurgia removeu todo o mamilo esquerdo e, preventivamente, a glândula do lado direito. O protocolo seguiu com sessões semanais de quimioterapia durante um ano inteiro.
Dados que expõem um padrão perigoso
Em 2024, o estado de São Paulo registrou 87 diagnósticos de câncer de mama em homens. Parece pouco diante dos milhares de casos femininos, mas a oncologista Talita Coelho aponta uma distorção grave: 44% dos tumores masculinos chegam aos hospitais paulistas em estágios avançados. Entre mulheres, o índice cai para 33%.
A diferença não está na biologia do tumor — que responde a apenas 1% do total de casos de mama —, e sim no tempo perdido até o diagnóstico.
- Homens não fazem rastreamento de rotina
- O nódulo costuma ser palpável, mas ignorado
- A vergonha ou a descrença adiam a busca médica
Por que o atraso acontece
“O homem não pensa que vai ter a doença”, resume a médica. Sem campanhas direcionadas e sem o hábito do autoexame, o sinal de alerta vira ruído de fundo. Marchesin viveu isso na pele: a dor aumentou gradativamente, mas a automedicação mascarou a progressão.
A fé, segundo ele, sustentou a saúde mental durante o tratamento. Hoje, o equilíbrio que cita — financeiro, espiritual, físico — virou tema de palestras para equipes corporativas.
O recado que fica para quem lê até aqui
Se algo no seu corpo destoa do normal, não espere a dor ficar insuportável. Toque-se. Procure um mastologista ou urologista. O câncer de mama masculino é raro, mas letal quando silencioso. A estatística de 44% em estágio avançado não é fatalidade — é consequência de tempo perdido.
O que observar daqui para frente: campanhas de Outubro Rosa que incluam homens nas peças de comunicação; protocolos de check-up executivo com exame clínico das mamas; e a disseminação do autoexame masculino como prática de higiene, não de exceção.
