A eleição para a presidência da Câmara em fevereiro de 2027 já começou nos bastidores, e a bancada de Santa Catarina expôs uma fratura que pode custar caro ao atual presidente Hugo Motta (Republicanos-PB). Seis dos 16 deputados federais eleitos pelo estado já sinalizam voto contrário à recondução do paraibano. O racha expõe um dilema estratégico que vai muito além de preferências pessoais.
Os números que assustam o Palácio
Levantamento junto às assessorias dos 16 parlamentares catarinenses mostra um cenário de resistência majoritária entre os que se posicionaram. Dos 13 que responderam até o momento, seis declararam oposição frontal a Motta, três confirmaram apoio e quatro adotaram a cautela como estratégia. Três deputados — incluindo Jair Renan Bolsonaro (PL) — não se manifestaram.
Essa divisão não é apenas local. Ela espelha a guerra fria entre o PL, que saltou de 99 para 121 cadeiras e quer protagonismo, e a aliança costurada por Motta unindo Centrão, PT, PCdoB e PV para isolar a sigla de Valdemar Costa Neto.
O xadrez do PL: comissões ou identidade?
O partido de Jair Bolsonaro vive um impasse clássico de realpolitik. Apoiar Motta garante a manutenção de espaços vitais, como a presidência da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), a mais poderosa da Casa. Lançar candidatura própria, no entanto, satisfaz a base ideológica, mas arrisca o isolamento total na mesa diretora.
No Senado, a sigla já rompeu: lançou Rogério Marinho (PL-RN) contra Davi Alcolumbre (União-AP). Na Câmara, a indefinição persiste, e Santa Catarina virou o termômetro dessa hesitação.
Quem já disse “não” — e por quê
A frente de resistência catarinense é heterogênea, unindo bolsonaristas raiz, siglas de centro-direita e até o MDB. Veja os posicionamentos consolidados:
- Júlia Zanatta (PL): Recordista de votos, afirmou em live que “não tem motivo algum para votar em Hugo Motta” e cobra candidatura própria do PL para “bagunçar o jogo”.
- Zé Trovão (PL): Foi além: não apoia Motta e cogita lançar o próprio nome à presidência da Câmara caso o partido não apresente alternativa alinhada à direita.
- Sargento Lima (PL): Condicionou o voto partidário a um único veto: “Desde que o nome não seja o de Hugo Motta”.
- Daniela Reinehr (PL): Defende candidatura própria da sigla nas duas Casas, o que na prática inviabiliza aliança com o atual presidente.
- Pezenti (MDB): Foi taxativo: “No Hugo Motta, não será”.
- Gilson Marques (Novo): Segue diretriz nacional da bancada, que fechará questão contra a reeleição e lançará candidato próprio em nome da “independência do Legislativo”.
A zona de espera e o contra-ataque governista
Quatro deputados preferem aguardar as reuniões partidárias da próxima semana: Daniel Freitas (PL), Júlio Garcia (PSD), Zé Milton (PP) e Geovania de Sá (Republicanos). O silêncio tático é uma moeda de troca por comissões e relatorias.
Do outro lado, a base de Lula já fechou questão. Ana Paula Lima (PT), Pedro Uczai (PT) — articulador-chefe da aliança — e Giovana Mondardo (PCdoB) confirmam voto em Motta. O objetivo explícito: isolar o PL e garantir governabilidade no quarto ano do mandato petista.
O que observar daqui para a frente
A próxima semana será decisiva. A bancada do PL se reúne para tentar unificar o discurso, mas a ala catarinense já avisou: se o acordo for por Motta, a dissidência será ruidosa. Para o empresariado e investidores, o sinal é claro: a correlação de forças na Câmara 2027 será mais fragmentada e menos previsível do que a atual. A disputa pela CCJ e pela pauta de votações econômicas promete ser mais dura, exigindo negociação caso a caso — cenário que costuma travar reformas, mas abre janelas para articulações setoriais.
