Economia

O segredo das 5 ações que ignoram o caos fiscal

Gráfico do Ibovespa em queda livre com dólar a R$ 5,40 e circuit breaker acionado
Ibovespa despenca 10% em outubro e aciona circuit breaker após reeleição, com dólar a R$ 5,40.

O Ibovespa despencou quase 10% apenas em outubro, o pior mês desde o pânico inicial da pandemia. O primeiro pregão após a reeleição acionou o circuit breaker com uma queda de 13,88%, enquanto o dólar saltava para R$ 5,40. A mensagem do mercado foi clara: a aposta na queda de juros longos morreu, e a prioridade agora é sobreviver à incerteza fiscal com o menor risco possível.

Dez das principais casas de análise viraram a chave de uma vez. Esqueça a briga entre exportadoras e domésticas; o novo mandato é proteção de caixa e previsibilidade de dividendos. O resultado é um ranking enxuto com cinco nomes que concentraram a confiança dos estrategistas para novembro.

A virada radical das carteiras recomendadas

Até setembro, a tese dominante dividia o capital entre quem ganhava com dólar alto e quem se beneficiava de juros futuros mais baixos. O tombo pós-segundo turno enterrou essa lógica. A XP rebaixou a Bolsa brasileira para neutra, equiparando seu potencial ao da renda fixa. A Ágora admite que o Brasil está barato, mas exige “postura mais cautelosa” e exposição gradual.

O consenso macroeconômico também rachou. A Genial projeta um último corte de 0,25 ponto na Selic, para 13,50%, seguido de pausa longa. O BTG Pactual, por outro lado, vê a taxa parada em 13,75% até o fim de 2027. Enquanto a nova equipe econômica não é anunciada e as contas públicas não dão sinal claro, a regra do jogo é uma só: caixa forte e baixa alavancagem.

As 5 ações que concentram as apostas para novembro

O levantamento com dez corretoras e bancos de investimento desenhou um pódio claro. Petrobras e Sabesp lideram isoladas com oito recomendações cada. Itaú Unibanco aparece com sete, enquanto Embraer e Caixa Seguridade fecham o top 5 com seis indicações. Nomes que brilhavam em outubro, como Vale e Rede D’Or, ficaram pelo caminho com apenas quatro menções.

  • Petrobras (PETR4): 8 recomendações | Retorno outubro: +7,31% | No ano: +194,28%
  • Sabesp (SBSP3): 8 recomendações | Retorno outubro: -9,95% | No ano: -1%
  • Itaú Unibanco (ITUB4): 7 recomendações | Retorno outubro: -11,13% | No ano: +37,17%
  • Embraer (EMBJ3): 6 recomendações | Retorno outubro: +2,37% | No ano: +16,15%
  • Caixa Seguridade (CXSE3): 6 recomendações | Retorno outubro: +7,55% | No ano: +54,58%

Petrobras e Sabesp: o duo de ferro da defensiva

A petroleira segue como a principal aposta de geração de caixa e hedge cambial. Para o BTG, o resultado das urnas “dificilmente mudará a direção estratégica”. O banco projeta produção acima do guidance, beirando 2,9 milhões de barris/dia, e estima *dividend yield* entre 10% e 12% para 2027, assumindo Brent entre US$ 70 e US$ 80. Os riscos moram no próprio petróleo: a Genial alerta para queda do barril se conflitos no Oriente Médio arrefecerem, e a Planner pede atenção à volatilidade cambial e de oferta.

A Sabesp, por sua vez, negocia cerca de 23% abaixo do nível pré-eleição. O BTG a mantém como escolha principal para os próximos 6 a 12 meses, com taxa interna de retorno estimada em 10,7%. Catalisadores concretos aparecem no radar: a revisão tarifária de dezembro e os leilões de novas concessões no início de 2027. O Santander projeta Ebitda de R$ 15,4 bilhões para 2026, alta de 24,2%, e afirma que os pilares da tese seguem intactos apesar de um segundo trimestre pressionado por custos de transformação.

Bancos, aviação e seguros completam a blindagem

O Itaú Unibanco é visto como “uma das teses mais sólidas do setor”, nas palavras da Planner, com índice de eficiência na casa dos 38% e ROE de 24,3%. O Andbank pondera que o crescimento de tarifas e seguros deve desacelerar para 2% a 5%, e que 2026 será um ano de transição com poucos gatilhos de curto prazo, mas a posição de fortaleza do balanço permanece.

A Embraer surpreendeu com Ebitda 19% acima do consenso no segundo trimestre e elevou o *guidance* de margem Ebit ajustada para 10% a 10,6%. O BTG espera terceiro trimestre forte, impulsionado por produção e caixa, e destaca que a depreciação do real sustenta a tese. O Santander vê desconto de 25% frente a pares globais e aponta a área de defesa como catalisador potente num mundo de gastos militares crescentes.

Por fim, a Caixa Seguridade é descrita pelo BTG como “resiliente em qualquer cenário”, combinando lucros previsíveis, dividendos atrativos (*yield* de 7%) e sensibilidade favorável a juros altos por mais tempo. A Ágora a chama de “pedágio” sobre a rede da Caixa: com Selic em queda, dividendo alto e previsível ganha valor relativo. O risco monitorado é o ritmo de vendas do seguro prestamista na rede bancária.

O que observar daqui para frente

O xadrez montado para novembro depende de duas variáveis que ainda não têm data para se resolver: a composição da equipe econômica e a sinalização crível de ajuste fiscal. Sem elas, a curva de juros longa deve seguir pressionada, mantendo o custo de capital elevado e punindo empresas alavancadas ou de crescimento distante.

Para o investidor, a lição prática é clara: a seleção migrou de “quem cresce mais” para “quem sangra menos”. As cinco ações acima não são imunes à volatilidade, mas oferecem o colchão de geração de caixa e remuneração ao acionista que o cenário atual exige. O próximo gatilho virá da política, não do balanço. Quem posicionar a carteira antes do anúncio dos ministros pode capturar a assimetria; quem esperar a confirmação corre o risco de pagar o prêmio da certeza.