Economia

Selic parada em 13,75%: o choque que ninguém esperava e o que vem depois

Reunião do Copom mantém taxa Selic em 13,75% ao ano com gráfico de juros estagnado
Copom surpreende mercado ao interromper ciclo de cortes e manter Selic em 13,75%.

O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano e pegou o mercado de surpresa. A decisão interrompe um ciclo de cortes que já durava meses e acendeu um sinal de alerta em toda a cadeia produtiva. O que está por trás dessa pausa brusca?

Entidades da indústria, do comércio e centrais sindicais reagiram com dureza. O consenso é raro: de um lado, a Confederação Nacional da Indústria (CNI); do outro, a CUT e a Força Sindical. Todos apontam para o mesmo risco — um freio desnecessário na economia real.

O que a indústria tem a dizer

A CNI classificou a manutenção como “equivocada e excessivamente conservadora”. Em nota assinada pelo presidente Ricardo Alban, a entidade defende que há espaço para novos cortes já na reunião de dezembro, sem comprometer a convergência da inflação à meta.

O argumento central: o custo do dinheiro está estrangulando empresas e famílias. O endividamento das famílias subiu, e o financiamento de capital de giro ficou mais caro justamente quando o setor precisava de fôlego para investir.

  • Selic atual: 13,75% ao ano
  • Próxima reunião do Copom: dezembro de 2026
  • Expectativa de crescimento do PIB (mercado): abaixo de 2% em 2026

Comércio e serviços sentem o golpe

Felipe Queiroz, economista-chefe da Associação Paulista de Supermercados (Apas), foi direto: juros altos prejudicam o consumo, limitam investimentos e travam a geração de empregos. Para ele, o Banco Central precisa calibrar uma política que controle preços sem asfixiar a atividade.

O varejo já vinha dando sinais de cansaço. Com o crédito mais caro, o consumidor posterga compras de maior valor — eletrodomésticos, veículos, materiais de construção. A cadeia inteira perde velocidade.

O impacto no orçamento público

Juvandia Moreira, presidenta da Contraf-CUT e vice da CUT, trouxe um ângulo frequentemente ignorado: cada ponto percentual a mais na Selic eleva o custo da dívida pública. Menos recursos sobram para saúde, educação e segurança.

A Força Sindical foi além. O presidente Miguel Torres usou adjetivos fortes — “irracional, nefasta e desastrosa” — para descrever a decisão. A entidade vê risco real de desemprego crescente nos próximos trimestres se o cenário não mudar.

Leitura política: pressão do mercado?

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) atribuiu a pausa à reação do mercado financeiro após o resultado das eleições presidenciais. Em publicação nas redes sociais, acusou setores da “Faria Lima” de usar os juros como instrumento de pressão sobre o governo eleito.

O parlamentar cobrou explicações formais do Banco Central sobre a interrupção do ciclo de cortes e defendeu que o foco deve migrar para investimentos em indústria, ciência e infraestrutura.

O que observar daqui para frente

A próxima reunião do Copom, em dezembro, será o termômetro decisivo. Se a inflação seguir em trajetória de convergência — como indicam os últimos boletins Focus —, a pressão por um corte de 0,50 ponto percentual deve crescer.

Enquanto isso, empresários e gestores de crédito precisam recalcular cenários: capital de giro mais caro por mais tempo, inadimplência potencialmente em alta e decisões de investimento adiadas. A leitura atenta das atas do Copom e dos dados de atividade (PMI, varejo, emprego) será essencial para não ser pego no contrapé.