Economia

Bets proibidas: R$ 3,6 bi podem voltar ao bolso do paranaense e turbinar o PIB

Dinheiro circulando no comércio paranaense após proibição de bets online
Proibição das bets pode fazer R$ 3,6 bi voltarem a circular na economia do Paraná

Os paranaenses deixavam escapar R$ 3,6 bilhões por ano para plataformas de apostas online — valor que, com a proibição das bets, tende a circular dentro do próprio estado. O cálculo é do Ipardes e aponta para um potencial acréscimo de R$ 2,3 bilhões no PIB paranaense.

Mas a pergunta que fica é: quanto desse dinheiro realmente chega ao varejo e quanto vira apenas estatística? Os primeiros sinais já aparecem nos caixas dos supermercados.

O choque imediato no consumo das famílias

Desde 25 de setembro, uma medida provisória federal bloqueou o acesso aos sites de apostas. Na sequência, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) registrou salto de 6% no consumo das famílias em todo o país. No Sul, a alta foi de 9%.

O crescimento concentrou-se nos itens da cesta básica — arroz, óleo, macarrão e café. Segundo João Carlos Galassi, presidente da Abras, as classes C, D e E lideraram a recuperação justamente por destinarem fatia maior da renda à alimentação.

  • R$ 50 bilhões: perda estimada em alimentos deixados de consumir só em 2024
  • 6%: alta nacional no varejo alimentar nas duas semanas pós-proibição
  • 9%: variação no Sul, acima da média nacional

O dado expõe um mecanismo direto: dinheiro que escorria para apostas volta a comprar o básico. Mas o efeito não para no supermercado.

Varejo e atacado: o próximo elo da cadeia

Julio Suzuki, diretor de pesquisa do Ipardes, projeta que os R$ 3,6 bilhões serão canalizados “preponderantemente, mas não somente” na atividade comercial — varejo e atacado. Isso significa giro de estoque, encomendas a fornecedores e, potencialmente, contratações.

No cenário nacional, o Banco Central estimava que as bets movimentavam até R$ 30 bilhões por mês antes do bloqueio. A arrecadação federal com a taxação somava cerca de R$ 15 bilhões desde a regulamentação de 2023. O governo concluiu que os danos sociais e econômicos superavam o ganho tributário.

O calendário político que define o futuro

A medida provisória tem validade de 120 dias, prorrogáveis por igual período. O Congresso tem até março de 2027 para converter em lei ou derrubar. Enquanto isso, o Supremo Tribunal Federal analisa oito ações — quatro contra a proibição, quatro contra a lei que regulamentava o setor.

Na terça-feira (3), o ministro Luiz Fux conduziu audiência pública com clubes de futebol, entidades civis e ministros. Não há data para o julgamento. O limbo jurídico mantém comerciantes e investidores em compasso de espera.

O rosto humano por trás dos números

Relatos colhidos pela RPC mostram o outro lado da equação. Um homem, viciado por mais de quatro anos, descreveu o colapso financeiro e familiar: “Destruí minha vida, meu casamento, o psicológico de quem me apoiava”. Hoje, ele frequenta grupo de apoio especializado e relata acolhimento sem julgamento.

O governo citou endividamento familiar, comprometimento de renda e impactos na saúde mental como pilares da decisão. A proibição, portanto, não é apenas econômica — é também uma resposta de saúde pública.

O que observar nos próximos meses

Três variáveis vão ditar se o otimismo do Ipardes se confirma: a manutenção da proibição pelo Congresso e STF, a migração para apostas ilegais ou offshore, e a capacidade do varejo de converter fluxo extra em investimento produtivo. Se o dinheiro ficar no ciclo local — salários, fornecedores, impostos estaduais —, o PIB paranaense captura o ganho. Se vazar para fora, o efeito se dilui.

Comerciantes devem monitorar o ticket médio e a frequência de clientes das classes C, D e E. Investidores, a tramitação no Congresso e as decisões do STF. O jogo, agora, é político.