Economia

R$ 50 mi de prejuízo e teatros fechados: o que Ribeirão Preto ainda esconde 3 meses após o vendaval

Danos do vendaval em Ribeirão Preto: teatro interditado e estrutura destruída
Teatro municipal segue fechado três meses após vendaval de 160 km/h que causou prejuízo de R$ 50 milhões.

Três meses depois do vendaval que varreu Ribeirão Preto com rajadas de 160 km/h, a conta final assusta: o município contabiliza prejuízo superior a R$ 50 milhões e segue refém de verbas estaduais e federais para reabrir equipamentos culturais e concluir a reconstrução. O valor mais que dobrou em relação à estimativa inicial de R$ 21,1 milhões.

Até agora, a Prefeitura recebeu R$ 11,5 milhões e executou cerca de R$ 8,5 milhões em ações emergenciais. Mas os maiores buracos — literais e orçamentários — continuam abertos.

De onde veio o dinheiro e para onde ele foi

O caixa de emergência foi montado com três fontes distintas. A Câmara Municipal devolveu R$ 6 milhões do próprio orçamento — recurso livre que permitiu ampliar equipes contratadas sem nova licitação. O governo estadual repassou R$ 4 milhões, sendo R$ 2,48 milhões via convênio com a Defesa Civil. A União enviou R$ 1,2 milhão carimbado para saúde e assistência social.

Do total disponível, R$ 8,5 milhões já viraram serviço: desobstrução de vias, recolhimento de vegetação, reparos em escolas e unidades de saúde. Outros R$ 1,64 milhão estão reservados para compra de veículos, ferramentas e auxílio direto a famílias atingidas — não podem ser usados na limpeza.

O volume que ninguém previa: 9.976 caminhões de galhos

A Secretaria do Meio Ambiente contabilizou a queda de 3 mil árvores. Nos 90 dias seguintes ao temporal, as equipes recolheram 9.976 caminhões de resíduos verdes. Para efeito de comparação, a média mensal do município gira em torno de 1,2 mil caminhões. O contrato de coleta, já vigente, ficou “muito mais caro”, nas palavras do secretário de Governo Jean Vicente, porque a demanda explodiu oito vezes.

  • 285 mil unidades consumidoras ficaram sem energia elétrica
  • Poços da Saerp pararam; bombas queimadas precisaram ser trocadas
  • Telhado do Centro Administrativo: R$ 180 mil em danos

Escolas resolvidas, teatros parados: a assimetria da resposta

A estratégia da administração foi evitar novas licitações. Usaram atas de registro de preços — contratos pré-existentes que permitem acionar fornecedores rapidamente. Resultado: das 24 escolas municipais danificadas, 23 tiveram reparos concluídos a tempo de reabrir na semana seguinte ao vendaval.

A exceção foi a EMEF Professor Nagib Jorge. A queda de um tronco de 90 toneladas causou destruição fora da capacidade dos contratos de manutenção. A unidade segue sem previsão de entrega.

O mesmo gargalo trava o Teatro Municipal, o Teatro de Arena e o Centro Pop (referência para população em situação de rua). Todos têm projetos cadastrados no governo federal, mas dependem de repasse para iniciar as obras. O atendimento do Centro Pop foi transferido provisoriamente para o Centro de Convivência do Idoso na Avenida Saudade.

Parques e praças: a conta do replantio

A remoção de troncos e galhos em áreas como a Praça Luís de Camões e o Parque Maurílio Biagi está concluída. O que falta — paisagismo, jardinagem, replantio — exige novo contrato de conservação urbana. A licitação está prevista para novembro.

Enquanto isso, a iniciativa privada moveu-se por conta própria: um grupo de empresários destinou cerca de R$ 1,5 milhão em doações e reformas, assumindo a restauração de uma unidade básica de saúde.

O que observar daqui para frente

A Prefeitura não estabelece cronograma para as obras estruturais enquanto os recursos externos não forem liberados. Para o empresariado e investidores da região, três variáveis merecem monitoramento: a tramitação dos repasses federais para os teatros e a escola Nagib Jorge; a licitação de conservação urbana em novembro; e a capacidade do município de honrar contratos ampliados sem novo aporte. O caixa emergencial secou. O próximo vento teste será financeiro.