O Comitê de Política Monetária (Copom) deve anunciar na quarta-feira (4) a interrupção do ciclo de quedas da Selic, mantendo a taxa em 13,75% ao ano. A decisão vem após uma onda de aversão a risco que fez o dólar saltar 9,18% em uma semana — a maior alta semanal desde 2008 — e colocou a inflação projetada para 2027 acima do teto da meta.
O que está em jogo não é apenas um número no comunicado do Banco Central. A combinação de incerteza fiscal, câmbio pressionado e choques de oferta cria um cenário onde cada movimento da taxa básica ganha peso desproporcional para quem investe, empreende ou apenas paga contas.
Por que o mercado virou a mesa em poucos dias
A reeleição do presidente Lula trouxe de volta o debate sobre a trajetória dos gastos públicos. Aliados do governo classificaram a reação dos ativos como “especulativa” e defenderam preservação de programas sociais em eventuais cortes de despesas. O sinal foi lido como ausência de âncora fiscal crível no curto prazo.
O resultado imediato: a curva de juros futuros embutiu prêmio de risco adicional, o real se desvalorizou para R$ 5,447 e as expectativas de inflação no boletim Focus para 2027 ultrapassaram 5% — acima do teto de 4,5% da meta. O horizonte relevante do BC, segundo a ex-diretora Fernanda Guardado, é o segundo trimestre de 2028.
O diagnóstico dos especialistas: pausa quase unânime
- Gustavo Loyola (ex-presidente do BC): manutenção da Selic; “o BC gasta munição em vão” sem ajuste fiscal.
- Sérgio Werlang (ex-diretor do BC): pausa para testar se choques são permanentes; alerta para risco de dominância fiscal.
- Fernanda Guardado (BNP Paribas): juros parados até março de 2025; Selic mais baixa seria incompatível com meta de 3% em meados de 2028.
- Alberto Ramos (Goldman Sachs): já não via espaço para cortes antes da eleição; agora, “não tem margem certamente para cortar”.
A exceção é Rafaela Vitória, do Banco Inter, que projeta um último corte de 0,25 ponto percentual (para 13,50%) seguido de comunicação de pausa em dezembro. Para ela, o juro atual ainda é restritivo o suficiente para amortecer choques esperados no início de 2027.
O que é dominância fiscal e por que assusta
O termo descreve a situação em que a expansão dos gastos públicos tira do Banco Central o controle sobre a inflação. Nesse cenário, subir juros deixa de funcionar: a autoridade monetária perde tração, a dívida pública acelera e a inflação se desancora.
Werlang resume o temor: “Se o governo Lula fizer política fiscal igual à de Lula 3, vai atingir esse valor de dominância fiscal num futuro não muito distante”. O câmbio acima de R$ 5,40 seria apenas o começo.
Choques que ainda não chegaram ao IPCA
Três fatores estruturais devem pressionar preços nos próximos trimestres, independentemente da decisão de quarta:
- Nova ponderação do IPCA: pesquisa de orçamentos familiares do IBGE aumenta peso de serviços, setor onde a inflação costuma ser mais resistente.
- Reforma tributária: alíquota de 11,3% para a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) acima do projetado para 2027.
- Fim da escala 6×1: impacto sobre custos trabalhistas ainda não precificado.
Some-se a isso o El Niño, que pode elevar preços de alimentos no primeiro semestre de 2025, e a conta fecha: o BC precisa de tempo para observar.
O que observar daqui para frente
A reunião de dezembro será o primeiro teste real: se o comunicado sinalizar “pausa prolongada” ou “viés de alta”, o mercado já terá precificado Selic estável no primeiro semestre de 2025. Para empresários e investidores, a regra prática é simples: planeje cenários com juros reais elevados por mais tempo. Crédito caro, inadimplência em alta e investimento contido não são prognósticos — são a consequência direta de um BC que perdeu espaço de manobra.
