O mercado financeiro reagiu ao resultado das urnas elevando as apostas para Selic, inflação e câmbio em 2026, enquanto o crescimento esperado encolhe pela terceira vez seguida. O primeiro Boletim Focus após a eleição presidencial expõe um cenário de custos mais altos e atividade mais fraca — combinação que pressiona margens e planejamento de caixa.
Os números saíram nesta terça-feira (03/11) e mostram que a expectativa de corte de juros até o fim do ano encolheu para míseros 0,25 ponto percentual. Entenda o que muda no seu balanço.
Selic: corte mínimo e juros altos por mais tempo
A projeção para a taxa básica ao final de 2026 subiu de 13,25% para 13,50%. Como a Selic hoje está em 13,75%, o mercado precifica apenas um alívio residual até dezembro. Para 2027 e 2028, as estimativas ficaram em 12,50% e 11%, respectivamente — patamares que mantêm o crédito caro e freiam investimentos de longo prazo.
Em termos práticos: capital de giro e financiamento de expansão continuam caros. Quem depende de dívida indexada ao CDI precisa alongar prazos ou travar taxas agora.
Inflação: meta cada vez mais distante
O IPCA esperado para 2026 avançou de 5,19% para 5,22% — quarta alta consecutiva. Há um mês, a projeção era 5,01%. Para 2027 e 2028, o mercado vê 4,76% e 4,00%, ainda acima do centro da meta (3%) e beirando o teto (4,5% em 2026 e 4% nos anos seguintes).
O IPCA-15 de outubro veio a 0,32%, acumulando 4,62% em 12 meses — já acima do teto oficial. A desaceleração mensal (setembro foi 0,70%) veio da energia elétrica, que migrou para bandeira verde. O alívio, porém, foi ofuscado pela comida:
- Tomate: +24,54%
- Cebola: +13,63%
- Batata-inglesa: +10,96%
- Arroz: +5,80%
Pressão de alimentos costuma ser mais persistente e difícil de combater só com juros.
PIB: terceira revisão para baixo em três semanas
A estimativa de crescimento para 2026 caiu de 1,80% para 1,76%. Parece pouco, mas é a terceira queda seguida — sinal de que o mercado enxerga perda de tração. Para 2027, a projeção é de apenas 1,20%, acelerando para 1,80% em 2028.
Juros altos + inflação resistente + câmbio pressionado = consumo contido e investimento adiado.
Dólar: salto de R$ 5,05 para R$ 5,34 em uma semana
A moeda americana projetada para o fim de 2026 disparou 5,7% em sete dias. Para 2027 e 2028, a expectativa travou em R$ 5,40. O movimento reflete aversão a risco fiscal e incerteza sobre a âncora cambial no novo mandato.
Empresas com passivo em dólar ou insumos importados precisam rever hedge e formação de preço. Quem exporta ganha fôlego, mas volume depende de demanda externa.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se esse cenário piora ou melhora nas próximas edições do Focus: (1) sinalização fiscal do novo governo nas primeiras medidas; (2) comportamento de commodities e safra de grãos no 1º trimestre; (3) comunicação do Copom na reunião de dezembro — qualquer indicação de manutenção da Selic em 13,75% valida o pessimismo atual.
Enquanto isso, caixa é rei. Alongue dívidas, trave custos dolarizados onde possível e segure expansões que exijam capital de terceiros a 13,50% ao ano.
