O agricultor Seiki Nishino, de 73 anos, transformou a rotina matinal em Biritiba-Mirim (SP) em um fenômeno digital com mais de 1 milhão de visualizações. Todos os dias, antes do nascer do sol, ele caminha até o tanque de uma propriedade vizinha para encontrar uma família de ratões-do-banhado que o espera. O que começou como um encontro casual virou um ritual de conexão rara entre homem e animal selvagem.
O encontro que mudou tudo
Há quatro anos, Seiki encontrou uma fêmea prenhe dentro do tanque. Em vez de afugentá-la, observou o comportamento curioso do animal, que se aproximava e fazia o que ele descreve como “gracinhas”. A identificação da espécie — roedores semiaquáticos de hábitos noturnos e geralmente solitários — torna a proximidade ainda mais incomum.
Um ano depois do primeiro contato, ele começou a gravar os encontros. A intenção era apenas registrar a amizade improvável para compartilhar com conhecidos. A repercussão ultrapassou qualquer expectativa: 100 mil curtidas e comentários de pessoas do mundo inteiro retribuindo o “bom dia” que ele dirige aos animais e à câmera.
Uma família que cresceu diante dos olhos
O tanque virou berçário. A fêmea original teve três filhotes na primeira ninhada e cinco na segunda. Hoje, seis indivíduos mantêm a rotina de visitas: a mãe, uma filha e quatro netos — termo carinhoso que Seiki usa para a geração mais nova. Ele recusa-se a dar nomes próprios.
- Primeira geração: mãe (fundadora do grupo)
- Segunda geração: 1 fêmea remanescente
- Terceira geração: 4 filhotes atuais
Os animais mais velhos, conforme amadureceram, retornaram à mata — comportamento esperado para a espécie, que vive em pares ou pequenos grupos familiares apenas em fases específicas.
A logística por trás dos vídeos
Os encontros duram cerca de 30 minutos e acontecem diariamente. Seiki chega de madrugada, inicia a gravação ao clarear e encerra quando o sol nasce e os roedores se recolhem à vegetação. A alimentação oferecida é cenoura; ele enfatiza que o sítio pertence a um amigo e o tanque fica em área vizinha — não há criação em cativeiro.
Morador de Biritiba-Mirim desde os 12 anos (chegou em 1965), Seiki vive sozinho em quarto alugado e cuida da rotina sem ajuda. A viralização pegou-o de surpresa: “Não esperava […] Deus está me abençoando. Simplesmente queria mostrar a amizade que fiz.”
O que a ciência diz sobre a espécie
O ratão-do-banhado (Myocastor coypus), também chamado de nútria ou ratão-d’água, habita áreas alagadas — margens de rios, lagoas e banhados. Alimenta-se de plantas aquáticas, raízes e vegetação ripária. Pode ser confundido com capivara ou castor, mas tem porte menor e cauda cilíndrica. Embora predominantemente solitário, forma núcleos familiares temporários, o que explica a dinâmica observada no tanque.
O que observar daqui para frente
A continuidade desse vínculo depende de fatores ambientais e biológicos: a preservação do tanque e da vegetação ao redor, a dispersão natural dos filhotes ao atingirem a maturidade e a saúde da fêmea fundadora. Para quem acompanha, resta a lição prática: interações respeitosas com fauna silvestre, sem domesticação ou alimentação inadequada, podem gerar registros valiosos — e, no caso de Seiki, uma comunidade global que começa o dia com um “bom dia” vindo do interior paulista.
