O ministro da Fazenda, Dario Durigan, foi taxativo: a ideia de tabelar a taxa Selic não está na mesa do presidente Lula e nenhum encontro com o economista André Lara Resende está agendado. A declaração, dada neste domingo (1º), tenta apagar o incêndio acendido por rumores de uma guinada heterodoxa na política monetária. Mas, se a proposta formal foi descartada, a pressão por respostas fiscais concretas só aumentou.
O recado direto de Durigan e Mercadante
Em nota oficial e em conversas reservadas, a equipe econômica buscou transmitir previsibilidade. Durigan afirmou que “nenhuma dessas ideias como tabelamento de juros está na mesa do presidente”. Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, reforçou: não há agenda com Lara Resende nem discussão interna sobre o tema. A movimentação ocorreu após a repercussão negativa no mercado financeiro, que precificou maior risco ao ouvir falar em controle de juros por decreto.
A proposta que assustou o mercado
O plano de Lara Resende, um dos pais do Plano Real, prevê ancorar a Selic entre a meta de inflação (3%) e o crescimento nominal potencial do PIB (estimado em 5,5%). Na prática, a taxa cairia gradualmente para 7,5% em 12 meses, com margem de segurança de dois pontos percentuais acima do PIB potencial. A tese central: o problema fiscal brasileiro é a despesa com juros, não o gasto primário. Para o mercado, porém, a medida cheira a dominação fiscal — quando o Banco Central abre mão de combater a inflação para financiar o Tesouro.
O tamanho do buraco nas contas públicas
Os números explicam a urgência do debate, mesmo que a solução mágica tenha sido negada:
- Dívida bruta: 82,9% do PIB (maior nível desde 2021);
- Ajuste necessário: pelo menos R$ 250 bilhões em quatro anos para estabilizar a trajetória;
- Selic atual: 13,75% ao ano, em dois dígitos desde 2022.
Com a taxa onde está, o custo da dívida cresce mais rápido que a economia. É essa dinâmica explosiva que alimenta propostas alternativas, por mais arriscadas que pareçam.
Ruído político e a corrida por 2027
Enquanto a equipe econômica tenta acalmar os agentes, a base política pressiona. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, classificou a crítica ao arcabouço fiscal como “ofensiva terrorista” e compartilhou o artigo de Resende. Edinho Silva, presidente do partido, saiu em defesa de Durigan como única voz autorizada. Paralelamente, aliados já articulam a antecipação da definição do ministro da Fazenda para o quarto mandato — o nome do governador Rafael Fonteles (PI) circula com força nos bastidores.
O que observar daqui para frente
O desmentido oficial resolve o curto prazo, mas não equaciona a equação fiscal. O mercado seguirá monitorando dois vetores: a execução do arcabouço fiscal aprovado em 2023 e a composição da equipe econômica para o próximo ciclo. A sinalização de um nome com perfil ortodoxo para a Fazenda em 2027 pode valer mais que qualquer declaração de domingo. Até lá, a volatilidade do câmbio e da curva de juros deve permanecer elevada, exigindo gestão de risco ativa de quem tem posições expostas ao Brasil.
