O Cruzeiro conquistou a Libertadores Feminina 2024 nos pênaltis após empate por 4 a 4 com o Corinthians, em uma virada histórica que expõe o descaso da Conmebol com a modalidade. O título inédito das Cabulosas veio contra o heptacampeão, em condições que seriam inaceitáveis no torneio masculino. A pergunta que fica: quanto vale esse espetáculo para a entidade que o organiza?
O roteiro improvável em Quito
A partida decisiva ocorreu em 31 de outubro, a 2.850 metros de altitude, no sexto jogo das equipes em apenas 16 dias. O Corinthians abriu 3 a 0 com dois gols de Gabi Zanotti nos primeiros minutos do segundo tempo. O cenário apontava para o quarto título consecutivo das Brabas.
O Cruzeiro descontou para 3 a 2, sofreu o quarto gol, mas buscou o empate aos 45 minutos da etapa final. Na disputa de pênaltis, após quatro cobranças isoladas de lado a lado, a goleira Camila Rodrigues defendeu a batida de Gi Fernandes e Robledo converteu a cobrança do título. Foi a primeira vez na história de finais únicas — masculino ou feminino — que um time virou uma desvantagem de três gols para levantar a taça.
Condições de trabalho x resultado de elite
O desempenho atlético chama a atenção justamente pela precariedade logística. As atletas atuaram em gramados danificados, com intervalos curtos de recuperação e em estádios praticamente vazios no Equador. A premiação ao campeão foi de 2 milhões de dólares.
Para comparação direta, o campeão da Libertadores Masculina 2024 embolsará 23 milhões de dólares apenas pela taça, somando mais de 30 milhões na campanha completa. A diferença supera 1.000%.
O que a Conmebol deixa na mesa
A coluna original destaca que a entidade possui recursos financeiros para alterar esse cenário. A Copa do Mundo Feminina de 2027 será sediada no Brasil, colocando a região no centro das atenções globais nos próximos anos. Investir agora significa capitalizar o crescimento exponencial da modalidade.
- Calendário: Final única após duas semanas de torneio vs. meses de disputa no masculino.
- Infraestrutura: Dois estádios em altitude vs. rota de estádios de ponta pelo continente.
- Premiação: 2 milhões (fem) vs. 23 milhões (masc) só pelo título.
- Visibilidade: Arquibancadas vazias vs. palcos lotados e transmissão primetime.
O custo da inércia para o negócio
O futebol feminino é a modalidade que mais cresce em audiência e patrocínio no mundo. Manter o formato atual — curto, centralizado e subfinanciado — limita o retorno comercial para clubes, broadcasters e a própria Conmebol. Clubes como Corinthians, Palmeiras, Ferroviária e agora Cruzeiro provam que a demanda por excelência existe; falta a oferta estrutural.
Alejandro Domínguez, presidente da entidade, tem à disposição um ativo valorizado pelo mercado global. A final de Quito serviu como prova de conceito: o produto é espetacular, a narrativa é forte, mas a embalagem continua amadora.
O que observar nos próximos ciclos
Fique atento à definição do formato da Libertadores Feminina 2025 e ao anúncio dos valores de direitos de transmissão e premiação para o próximo quadriênio. A pressão por equidade — vinda de patrocinadores, federações nacionais e da Fifa — deve forçar mudanças no regulamento e no calendário. Quem antecipar a profissionalização da estrutura colherá a valorização de marca e ativos antes da Copa do Mundo de 2027.
