Justiça

Listas secretas de Trump: 20 mil votos em xeque e a corrida contra o relógio

Donald Trump discursa sobre listas de 20 mil eleitores contestados na Califórnia com Suprema Corte ao fundo
Trump contesta 20 mil votos na Califórnia em batalha judicial que chegou à Suprema Corte.

O governo federal identificou cerca de 20 mil eleitores registrados na Califórnia que, segundo bancos de dados federais, provavelmente não são cidadãos americanos. O Departamento de Justiça exigiu que esses votos não sejam contados na eleição de terça-feira — e avisou que mesários que os computarem podem responder criminalmente. A batalha judicial já chegou à Suprema Corte.

O desfecho desse embate pode definir não apenas o controle do Congresso, mas o precedente para como listas de elegibilidade serão usadas em disputas futuras. Entenda o que está em jogo.

O que o governo federal fez até aqui

Em 13 de outubro, o Departamento de Justiça enviou carta às autoridades eleitorais da Califórnia listando 20 mil nomes cruzados com bases de dados federais de imigração. A ordem: não contar esses votos sem verificação prévia de cidadania. Quatro outros estados — Washington, Nova Jersey, Pensilvânia e Nevada — receberam comunicações semelhantes até 30 de outubro.

A Casa Branca sustenta que o voto de não cidadãos é um problema significativo. Dados disponíveis, contudo, contam outra história: uma investigação da Reuters encontrou apenas 129 processos federais por voto ilegal de estrangeiros desde 1996. A maioria decorreu de confusão burocrática, não fraude intencional.

Como as listas foram montadas

Não existe cadastro nacional unificado de cidadãos aptos a votar. A administração Trump contornou isso solicitando listas eleitorais estaduais sem censura — com números de carteira de motorista e dígitos do Seguro Social visíveis. Dezesseis estados, incluindo Alabama e Texas, atenderam voluntariamente. Trinta estados e o Distrito de Columbia recusaram e foram processados.

  • 27 ações federais já foram rejeitadas por juízes de primeira instância
  • O Departamento de Segurança Interna (DHS) obteve dados parciais de pelo menos 47 estados
  • Investigadores cruzaram nomes, endereços e datas de nascimento com bases federais de imigração

O secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, afirmou à Fox News ter encontrado 300 mil não cidadãos nos cadernos eleitorais — sem apresentar provas ou metodologia.

O entrave judicial na Califórnia

Em 28 de outubro, um juiz federal barrou a tentativa do DOJ de bloquear os 20 mil votos. A decisão citou “caos” iminente na eleição de 3 de novembro e questionou a confiabilidade da lista. Dois dias depois, um tribunal de apelação manteve o bloqueio, alertando para “risco significativo” de privar eleitores legítimos.

O vice-procurador-geral interino, Trent McCotter, confirmou à Fox News que o governo “provavelmente” recorrerá à Suprema Corte. Ele admitiu que a lista pode conter cidadãos americanos.

Por que isso importa para o resultado de terça-feira

Mesmo que as listas sejam imprecisas, elas servem de base legal para contestar resultados apertados. A maioria das leis estaduais permite que apenas candidatos ou eleitores questionem a apuração — mas um derrotado pode alegar que votos de supostos não cidadãos tornam impossível identificar o vencedor legítimo.

Especialistas ouvidos pela Reuters identificam três cenários de risco:

  • Contestações pós-apuração em distritos decididos por margens mínimas
  • Pressão sobre autoridades estaduais alinhadas a Trump para retardar certificação
  • Tentativas do DOJ de usar vias legais alternativas para impedir certificação de vencedores

Todos enfrentam obstáculos formidáveis. Mas a simples existência das contestações injeta incerteza no processo.

O que observar nas próximas 72 horas

A Suprema Corte pode ser acionada a qualquer momento para decidir se os 20 mil votos californianos serão contados. A resposta dos juízes sinalizará até onde o governo federal pode ir na fiscalização de listas estaduais — e se alegações baseadas em cruzamento de dados burocráticos bastam para suspender direitos de voto na véspera da apuração.

Para investidores e analistas de risco político, o indicador-chave não é o mérito das listas, mas a velocidade com que contestações baseadas nelas conseguem travar certificações em estados-pêndulo. Margens apertadas na Câmara e no Senado amplificam o valor de cada dia de atraso.

O prazo final para certificação varia por estado, mas a maioria exige conclusão até meados de dezembro. Cada hora de litígio agora encurta a janela de manobra posterior.