Meio Ambiente

Cantareira salta para 51%: o alívio que esconde um limite perigoso

Reservatório do Sistema Cantareira com nível de água em 51% em outubro, represa cheia cercada por vegetação
Cantareira atinge 51,2% da capacidade em outubro, segundo melhor nível da década, mas restrições continuam em novembro.

O Sistema Cantareira fechou outubro com 51,2% do volume útil, o segundo melhor resultado para o mês em uma década, mas a celebração tem prazo de validade. Em novembro, a torneira segue parcialmente fechada por determinação técnica.

O número representa um salto brutal frente aos 23,4% do ano passado, porém esconde uma conta que impacta diretamente o bolso e a segurança hídrica de milhões.

O retrato numérico da recuperação

Dados da Sabesp confirmam: o reservatório ganhou quase 10 pontos percentuais em 30 dias, saindo de 41,1% no fim de setembro para 50,69% no último dia útil de outubro. Foi a chuva — 210,8 mm, 62% acima da média histórica — que fez o trabalho pesado.

Veja como a curva mudou nos últimos anos:

  • 2026: 51,2% (2º melhor da década)
  • 2025: 23,4% (crítica)
  • 2024: 46,6%
  • 2023: 72,9% (recorde recente)
  • 2014/2015: Volume negativo (crise histórica)

Apesar do alívio, a marca de 60% — porta de entrada para a “Faixa Normal” — continua distante.

Por que a faixa de atenção trava a captação

Com 50,69% registrados na sexta-feira (30), o sistema travou na Faixa 2. Na prática, a Sabesp fica limitada a retirar 31 m³/s. Se cruzasse a linha dos 60%, o limite saltaria para 33 m³/s.

Parece pouco? Essa diferença de 2 m³/s equivale a 2 mil litros por segundo a menos na rede. Em um mês, são mais de 5 bilhões de litros que deixam de ser captados — volume suficiente para abastecer uma cidade média.

A regra, nascida do trauma de 2014, é clara: quanto menor o reservatório, mais conservadora a retirada. Hoje, a tabela opera assim:

  • Normal (≥ 60%): 33 m³/s
  • Atenção (40% a 60%): 31 m³/s ← Cenário atual
  • Alerta (30% a 40%): 27 m³/s
  • Restrição (20% a 30%): 23 m³/s
  • Especial (< 20%): 15,5 m³/s

O fator El Niño: chuva forte, mas mal distribuída

A previsão para novembro a janeiro aponta El Niño forte, com chuvas acima da média no Sudeste. O pesquisador Gilvan Sampaio (Inpe) alerta: o volume total pode até subir, mas o padrão será de pancadas intensas e irregulares.

Isso cria um paradoxo perigoso: risco de enchentes e deslizamentos nas cidades, enquanto a infiltração no solo — que alimenta os reservatórios de forma sustentada — fica comprometida. Chuva forte demais, em pouco tempo, escorre superficialmente sem recarregar os mananciais.

Infraestrutura estratégica e a interligação do Paraíba

O Cantareira não é apenas um tanque: abastece metade da Grande SP, Campinas e as bacias PCJ (Piracicaba, Capivari, Jundiaí). Seu volume útil total beira 982 bilhões de litros, distribuídos em Jaguari, Jacareí, Cachoeira, Atibainha e Paiva Castro.

Desde 2018, a interligação com a bacia do Paraíba do Sul (via Jaguari-Atibainha) funciona como uma válvula de escape extra. Em cenários de estiagem severa, essa engenharia evita o uso do volume morto — o “último suspiro” do sistema.

O que observar daqui para frente

O gatilho imediato é a virada para a Faixa Normal. Para isso, o sistema precisa sustentar 60% no fechamento de novembro — meta que exige chuvas consistentes, não apenas temporais isolados.

Monitore dois indicadores semanais: o volume útil percentual (divulgado pela Sabesp) e a vazão afluente real nas bacias. Se a captação permanecer travada em 31 m³/s durante o verão, a pressão sobre a outorga de água para indústria e agricultura na região metropolitana tende a aumentar. A gestão de 2027 começa a ser definida agora.