Meio Ambiente

Cantareira salta para 51%: 2º melhor outubro em década, mas restrição continua

Gráfico mostra volume do Sistema Cantareira em 51,2% no outubro de 2024, 2º melhor em 10 anos
Cantareira atinge 51,2% em outubro, mas restrição de captação persiste na Faixa 2.

O Sistema Cantareira fechou outubro com 51,2% do volume útil, o segundo melhor índice para o mês em dez anos, perdendo apenas para 2023. Apesar do alívio hídrico, a gestão segue em “Faixa 2 – Atenção” e a torneira de captação continua limitada.

O dado contraditório — reservatórios cheios, mas regras de seca mantidas — expõe a fragilidade da segurança hídrica na maior metrópole do país. Entender o que trava a liberação total é essencial para quem depende de previsibilidade no abastecimento industrial e urbano.

O salto histórico e o “freio” que não soltou

Em 30 de outubro, o volume útil marcava 50,69%, patamar que mantém o sistema na Faixa 2. A regra é clara: abaixo de 60%, a Sabesp tem teto de captação de 31 m³/s. Na faixa normal, o limite sobe para 33 m³/s — uma diferença de 2.000 litros por segundo.

Essa trava existe desde a crise de 2014/2015. O objetivo é evitar que uma estiagem repentina derrube os reservatórios antes que a operação possa reagir. Para o setor produtivo, significa que, mesmo com represas mais cheias, a margem de segurança operacional continua apertada.

Chuva acima da média: o motor da recuperação

O responsável pela virada foi um outubro atípico. Choveu 210,8 mm na bacia, volume 62% acima da média histórica de 130,1 mm. Somado a setembro (283,5 mm), o sistema ganhou 9,59 pontos percentuais em 30 dias — saindo de 41,1% para 50,69%.

Em agosto, o Cantareira estava em 32,99%, na Faixa de Alerta. A velocidade da recuperação surpreendeu até os modelos mais otimistas.

  • Volume útil total: ~981,56 bilhões de litros.
  • Captação atual (Faixa 2): 31 m³/s.
  • Captação na normalidade (≥60%): 33 m³/s.
  • População atendida: ~50% da RMSP + Campinas e bacias PCJ.

Tabela das faixas de operação (Regras pós-2015)

Faixa Volume Útil Limite de Retirada
Normal ≥ 60% 33 m³/s
Atenção (Atual) 40% a < 60% 31 m³/s
Alerta 30% a < 40% 27 m³/s
Restrição 20% a < 30% 23 m³/s
Especial < 20% 15,5 m³/s

El Niño na porta: oportunidade ou risco de enchente?

O fenômeno deve se intensificar a partir de novembro, com previsão de chuvas acima da média no Sudeste, Sul e Centro-Oeste até janeiro de 2027. O Painel El Niño (Inmet, Inpe, ANA) também aponta temperaturas elevadas na maior parte do território.

O pesquisador Gilvan Sampaio (Inpe) alerta: a chuva virá em pancadas intensas e irregulares, não em períodos prolongados. Isso eleva o risco de alagamentos e deslizamentos, sem garantir recarga eficiente dos aquíferos e reservatórios. A distribuição espaço-temporal da precipitação será o fator decisivo.

O que observar daqui para frente

A meta imediata é romper a barreira dos 60% para sair da Faixa 2. Com o histórico de chuvas de primavera/verão e o El Niño ativo, a probabilidade técnica é alta, mas não garantida. O gestor deve monitorar três variáveis semanais: volume armazenado nas bacias Jaguari/Jacareí/Atibainha (que respondem mais rápido), vazões afluentes reais versus previstas e o acionamento da interligação com a bacia do Paraíba do Sul (operacional desde 2018).

Se novembro repetir outubro, a normalização ocorre ainda no primeiro trimestre. Se o padrão de “pancadas” falhar nas cabeceiras, o sistema trava nos 50% e a restrição de 31 m³/s vira o novo normal para o verão. Para negócios sensíveis a água, o cenário exige planos de contingência baseados no teto atual, não no otimista.