Ciência

O segredo de Kassab nas pesquisas: como a derrota reorganizou o Congresso

Gilberto Kassab, presidente do PSD, em análise política sobre eleições 2022
Kassab previu vitória de Lula em 2022 e manteve PSD fora do centrão bolsonarista.

Em 18 de outubro de 2022, uma semana antes do segundo turno, Gilberto Kassab olhou para o empate técnico nas pesquisas e decretou: “Vai ganhar o Lula”. A leitura do presidente do PSD não veio de torcida, mas da curva ascendente de intenções de voto que a maioria ignorava. Essa convicção manteve o partido fora da corrida desesperada do centrão rumo a Flávio Bolsonaro e desenhou o mapa de poder que vigora hoje.

A leitura que escapou ao radar dos analistas

Enquanto o noticiário focava na onda bolsonarista que elegeu bancadas recordes no PL, Kassab enxergava o movimento inverso nas entrelinhas dos levantamentos. A neutralidade do PSD não foi omissão; foi aposta calculada. Ao recusar o embarque imediato na canoa da direita, o partido preservou capital político para negociar de posições equivalentes com os dois polos.

O gesto teve efeito cascata. Outras legendas do centro, pressionadas a escolher lado, ganharam tempo para avaliar riscos. O resultado prático: o bloco que parecia destinado ao encolhimento pós-eleição manteve musculatura para ditar regras no Legislativo.

O diagnóstico errado sobre o Legislativo

A noite da apuração legislativa criou uma miragem perigosa. O desempenho do PL na Câmara e no Senado sugeriu um Congresso dominado pela oposição radical a partir de 2027. A projeção ignorava um detalhe estrutural: parlamentares eleitos na esteira de um líder presidencial não necessariamente replicam a fidelidade ideológica quando o chefe perde a eleição majoritária.

Dados das últimas legislaturas mostram que a taxa de migração partidária nos primeiros dois anos de mandato supera 15%. O eleitor vota no puxador de votos; o deputado vota onde há orçamento e comissões.

O rearranjo pós-urnas: abóboras na carroça

A metáfora das abóboras que se acomodam após o tranco na carroça resume o que ocorreu nas semanas seguintes. Derrotado no plano federal, o bolsonarismo viu aliados históricos — inclusive o partido do candidato derrotado — sinalizarem abertura ao diálogo com o Planalto. O isolamento dos radicais deixou de ser tese para virar risco concreto de sobrevivência política.

  • Reequilíbrio de forças: o governo ganhou fôlego inesperado para articular maiorias.
  • Centrão resgatado: o bloco retomou o papel de fiel da balança, condição que havia perdido no imaginário da “onda conservadora”.
  • Oposição com alternativa: a relevância obtida nas urnas só se sustenta se o bloco se organizar como opção de poder, não como veto permanente.

Centrão resgatado: o fiel da balança volta ao jogo

O movimento não foi altruísmo. A lógica do Parlamento difere radicalmente da dinâmica eleitoral. Na urna, vence quem elimina o adversário; no plenário, avança quem constrói consensos. Sem o centrão, nem governo nem oposição radical conseguem aprovar pautas estruturais — de reforma tributária a marco regulatório de energia.

Essa constatação forçou uma redistribuição de comando em comissões estratégicas e na distribuição de relatorias. O PSD, ao lado de MDB, União Brasil e Republicanas, passou a ditar o ritmo das votações, cobrando contrapartidas em emendas e cargos de segundo escalão.

A lógica do Parlamento: consenso, não eliminação

O paradoxo apontado pela análise política se confirma: o desequilíbrio entre o voto para o Executivo (vitória petista) e o voto para o Legislativo (vitória conservadora) funcionou como freio e contrapeso. A concentração de poder — risco real em 2019-2022 — deu lugar a uma arquitetura onde nada passa sem negociação.

Para o empresariado e investidores, o cenário traz previsibilidade. Mudanças regulatórias bruscas perdem espaço; agendas de infraestrutura e segurança jurídica ganham tramitação mais lenta, porém mais estável. O custo é a lentidão; o benefício é a redução de rupturas.

O que observar daqui pra frente

Três variáveis definirão se o equilíbrio atual se consolida ou se rompe: a capacidade do governo de entregar resultados econômicos que reduzam a pressão por pautas de confronto; a habilidade da oposição em transformar capital eleitoral em agenda legislativa concreta; e a disposição do centrão em manter a coesão interna diante da distribuição de recursos do Orçamento 2025. O tabuleiro está posto. A partida, no entanto, recomeça a cada votação.