O dólar fechou outubro a R$ 5,446, cravando a maior valorização semanal desde o colapso de 2008. O Ibovespa não ficou para trás: despencou 18,12% em cinco dias, pior marca desde o choque inicial da pandemia. O que explica esse duplo massacre nos ativos brasileiros?
O raio-X da destruição: números que assustam
A sessão desta sexta-feira (30) consolidou um outubro para ser esquecido. O real perdeu força em quase todas as frentes, enquanto a bolsa viu o dinheiro estrangeiro evaporar.
- Dólar à vista: R$ 5,446 (+1,09% no dia; +9,15% na semana; +5,27% no mês)
- Ibovespa: 167.921 pontos (-0,75% no dia; -18,12% na semana; -9,88% no mês)
- Fluxo estrangeiro: Saída líquida de quase R$ 7,6 bilhões em apenas três pregões
Foi o quinto pregão consecutivo de queda do índice. Na segunda-feira pós-eleição (26), o circuito breaker foi acionado — sinal de que o pânico, e não apenas a realização, deu o tom.
Por que o real virou alvo preferencial
A reeleição do presidente Lula trouxe de volta o fantasma do risco fiscal. O mercado não compra promessas; compra planos concretos. Enquanto a nova equipe econômica não é anunciada e medidas de contenção de gastos não aparecem, o prêmio de risco embutido no câmbio só faz subir.
Some-se a isso a formação da Ptax de fim de mês — referência para liquidação de contratos futuros — e a necessidade de proteção antes do feriado prolongado de Finados. A “tempestade perfeita” empurrou a cotação para a máxima intradiária de R$ 5,463.
O efeito dominó lá fora: tecnologia e juros
Não foi só problema de casa. Em Nova York, o S&P 500 afundou 1,82% com balanços decepcionantes das gigantes de tecnologia e dúvidas sobre o retorno dos bilhões investidos em inteligência artificial.
O índice DXY, que mede o dólar contra moedas fortes, mal se moveu (0,01%), mas o movimento foi brutal nos emergentes. Quando o apetite por risco seca nos EUA, o capital foge da periferia primeiro. O Brasil, com seu déficit fiscal e incerteza política, fica na linha de frente.
O que observar daqui para frente
A semana que vem encurta com o feriado de segunda (2), mas a agenda promete volatilidade. Três vetores vão ditar o ritmo:
- Anúncio da equipe econômica: Nomes para Fazenda e Planejamento funcionam como âncora imediata para o câmbio.
- Pacote fiscal: Detalhes sobre corte de gastos ou nova regra de âncora param a sangria ou a aceleram.
- Dados dos EUA: Payroll (sexta) e inflação (CPI) na semana seguinte mexem na curva de juros americana e, por tabela, no fluxo para emergentes.
Enquanto a sinalização fiscal não vier, a banda de R$ 5,40 a R$ 5,50 deixa de ser teto e vira novo chão de negociação. Quem precisa de dólar para pagar dívidas ou importar já sente o custo da hesitação no bolso.
