Em depoimento de duas horas e meia à Polícia Federal, Daniel Vorcaro negou todas as acusações de fraude na venda de carteiras de crédito ao BRB e afirmou que sua prisão é injusta. O dono do Banco Master foi além: previu que dirigentes do Banco Central serão cobrados pelos prejuízos que alega ter sofrido. Mas o inquérito de 700 páginas entregue ao STF conta uma história bem diferente.
O depoimento e a narrativa da ‘pressão nacional’
O interrogatório ocorreu em 15 de setembro, com Vorcaro acompanhado de sua defesa. Durante a oitiva, o empresário adotou tom de confronto, rebatendo ponto a ponto as perguntas da delegada responsável.
Ele classificou a investigação como resultado de uma “pressão de todos” — incluindo, segundo ele, os próprios policiais. “Passa tudo e vai ficar na história quem tem coragem de ver a verdade”, declarou. Vorcaro insiste que não lesou o banco de Brasília e que, ao contrário, aportou ativos pessoais nas operações.
Os crimes imputados e o indiciamento em massa
Na quarta-feira (28), a PF formalizou o indiciamento de Vorcaro, do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e de outras 14 pessoas. A lista de suspeitas contra o controlador do Master é extensa:
- Gestão fraudulenta de instituição financeira;
- Fraude à fiscalização do Banco Central;
- Lavagem de dinheiro;
- Indução ou manutenção em erro sobre operação financeira;
- Participação em organização criminosa.
Costa responde por gestão fraudulenta e organização criminosa. A defesa de Vorcaro classificou o relatório como “açodado e afoito”, argumentando que antecipa conclusões que a própria investigação admite não ter fechado.
O que diz o relatório de 700 páginas no STF
O documento policial, já nas mãos do Supremo Tribunal Federal, aponta que as sucessivas aprovações das operações entre Master e BRB contribuíram para manter e ampliar negócios bilionários. Segundo a PF, houve “postergação, flexibilização ou esvaziamento dos controles internos” do banco estatal.
Em termos jurídico-penais, os elementos são vistos como compatíveis, em tese, com atos de gestão fraudulenta. A tese da autoridade policial é a de que a estrutura de governança do BRB foi sistematicamente enfraquecida para viabilizar as transações.
Prisão, liquidação e o cenário atual
Vorcaro foi preso preventivamente em novembro de 2024 e permanece custodiado no 19º Batalhão da Polícia Militar do DF, conhecido como Papudinha. Dias após sua detenção, em 18 de novembro, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.
No depoimento, o empresário descreveu sua situação como “vida devassada e família dilacerada”. Seus advogados sustentam que o indiciamento é uma peça de acusação prematura, enquanto a defesa de Paulo Henrique Costa afirma que a polícia inverteu o ônus da prova, submetendo os fatos às hipóteses acusatórias.
O que observar daqui para frente
O processo agora segue para análise do Ministério Público Federal, que decidirá se apresenta denúncia formal ao STF. Para o mercado, o caso serve de termômetro sobre a rigidez da fiscalização bancária e os limites da atuação de instituições estaduais em operações de alto risco.
Investidores e gestores devem monitorar dois vetores: o desenrolar da ação penal no Supremo e os eventuais desdobramentos civis sobre os ativos vendidos ao BRB. A definição sobre a legalidade das carteiras transferidas impactará diretamente a recuperação de créditos e a confiança no sistema de resolução bancária brasileiro.
