A Vale (VALE3) fechou a sexta-feira (30) em alta de 3,28% após divulgar o balanço do terceiro trimestre, mesmo com o lucro líquido despencando 53% na comparação anual para US$ 1,255 bilhão. O mercado ignorou a queda no resultado final e premiou a geração de caixa robusta e o desempenho da divisão de metais básicos. Mas a festa pode ter data para acabar.
O número que ninguém esperava: Caixa no bolso
O grande destaque positivo não veio do lucro contábil, mas do fluxo de caixa livre recorrente: US$ 1,4 bilhão no período. O fluxo de caixa operacional somou US$ 2,5 bilhões, superando com folga as projeções de XP, Itaú BBA, Bradesco BBI, Morgan Stanley e JPMorgan.
Esse desempenho permitiu reduzir a dívida líquida expandida para US$ 16,4 bilhões, mantendo-a confortavelmente na faixa alvo de US$ 10 a US$ 20 bilhões. Para o Bradesco BBI, o rendimento anualizado implícito nesse fluxo de caixa livre beira os 12%.
Mas o efeito mais relevante para o acionista aparece na divisão que menos pesa no faturamento total.
Cobre assume o protagonismo e carrega o piano
Enquanto o minério de ferro pressiona, a Vale Base Metals entregou Ebitda de aproximadamente US$ 1,1 bilhão — salto de mais de 60% frente ao mesmo período de 2025. O cobre sozinho contribuiu com cerca de US$ 1 bilhão, bem acima do consenso.
O resultado reflete preços realizados mais elevados e créditos de subprodutos, compensando a queda de volume causada pela manutenção programada em Sossego. A companhia manteve o guidance de produção para cobre e níquel em 2026, sinalizando que ambas devem fechar o ano na metade superior das faixas projetadas.
Minério de ferro: O calcanhar de Aquiles segue sangrando
A produção de ferro somou 88,4 milhões de toneladas, recuo de 6% na anual, puxada pela menor disponibilidade em Serra Norte — um dos ativos mais rentáveis da casa. O preço realizado caiu para US$ 85,1 por tonelada, quase 10% abaixo do trimestre anterior, agravado por ajustes FOB e redução nos prêmios de qualidade.
- Produção 3T26: 88,4 Mt (-6% a/a)
- Preço realizado: US$ 85,1/t (-10% t/t)
- Custo C1: US$ 23,1/t (abaixo do esperado)
- Frete: US$ 22,8/t (protegido por hedge)
O Goldman Sachs vê aqui a principal preocupação para 2027: a exaustão acelerada de Serra Norte e a dependência crescente de compras de terceiros colocam em xeque a sustentabilidade de volumes e margens. O guidance anual de 335 a 345 milhões de toneladas foi mantido, mas aponta para o piso da faixa.
Custos: Alívio cambial maserva risco do diesel
O custo caixa C1 ficou em US$ 23,1/t, beneficiado por câmbio favorável e ganhos de eficiência. O frete marítimo, em US$ 22,8/t, permanece bem abaixo da rota spot Brasil-China graças ao programa de hedge e contratos de longo prazo.
A XP vê espaço para alívio adicional nos próximos trimestres. O Goldman, contudo, alerta: preços do diesel, frete e mudanças no mix operacional podem pressionar a estrutura de custos no ano que vem, especialmente se houver redução dos subsídios ao combustível no Brasil.
O veredito das casas: Compra, venda ou espera?
O mercado segue dividido, mas o tom majoritário pende para o construtivo no curto prazo:
- XP: Neutro a marginalmente positivo (guidance mantido, disciplina de custos, caixa forte).
- Itaú BBA: Outperform (compra), preço-alvo R$ 94.
- Bradesco BBI: Outperform, riscos do ferro já precificados na queda de 11,78% no mês.
- Goldman Sachs: Neutro, dúvidas centrais na capacidade de preservar volumes e qualidade em 2027.
O que observar daqui para frente
O trimestre mostrou que a Vale sabe gerar caixa mesmo em cenário adverso de preços do ferro. A aposta do mercado agora reside na transição do portfólio: o cobre precisa provar que consegue sustentar a geração de valor enquanto a base de ativos de ferro envelhece. O investidor deve monitorar, nos próximos relatórios, a velocidade de ramp-up de novos projetos em metais básicos e a real capacidade de substituir Serra Norte sem destruir margem. Se o mix de qualidade continuar se deteriorando, o desconto atual nas ações pode se justificar — ou até aumentar.
