Economia

Você não vai acreditar: base de Lula quer derrubar arcabouço fiscal

Lula e aliados discutem revogação do arcabouço fiscal com gráficos de queda da Bolsa
Base do governo pressiona por fim da regra fiscal, provocando pânico nos mercados financeiros

Aliados de primeira hora do presidente eleito rejeitam qualquer ajuste nas contas públicas e já articulam a revogação da regra fiscal que limita o crescimento dos gastos. A divergência expõe um racha interno que fez o Ibovespa derreter 13,88% em um único dia e levou o dólar a R$ 5,60.

O mercado ainda não digeriu o choque: a Bolsa acumula queda de 17,5% desde o resultado das urnas e os juros futuros de longo prazo seguem acima de 15% ao ano. A pergunta que fica é até onde o governo irá para acomodar sua base sem quebrar a confiança dos investidores.

O racha exposto em menos de 24 horas

Na terça-feira (27), o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou que “não há pacote de ajuste em discussão”. Horas depois, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, sinalizava medidas para acalmar o mercado. Guimarães recuou nas redes, mas o ruído já estava dado.

A ala mais à esquerda da coalizão não esconde o jogo. Guilherme Boulos (PSOL) declarou que “o tesouraço foi derrotado nas urnas” e que a agenda econômica será a da campanha vitoriosa. A deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) foi além: defendeu abertamente a revogação do arcabouço fiscal, a taxação de bilionários e mais recursos para programas sociais.

Promessas de campanha que pesam R$ 405 bilhões

O chamado “Gastômetro” contabilizou 46 medidas anunciadas às vésperas da eleição com impacto fiscal direto. Três delas concentram o risco imediato:

  • Reajuste do Bolsa Família
  • Perda de arrecadação com o fim da taxação de bets
  • Benefícios ampliados para MEIs

Juntas, segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI), podem gerar um rombo adicional de R$ 40 bilhões por ano. A dívida bruta do governo geral já bate 82,9% do PIB, com a Selic a 13,75% ao ano.

Mantega ganha a orelha do presidente

Enquanto a equipe econômica tenta convencer Lula da necessidade de sinalização, o ex-ministro Guido Mantega — arquiteto da Nova Matriz Econômica — ganhou espaço. Para ele, não há crise fiscal, apenas “exagero da Faria Lima”. Lula teria dito a interlocutores que não deve “satisfações ao mercado financeiro”.

Essa visão ignora o diagnóstico de economistas como Paulo Tafner (IMDS) e Alexandre Manoel (Global Analytics). Para ambos, a trajetória é insustentável: sem corte de despesas, o caminho é a volta da inflação, recessão e desemprego — cenário semelhante a 2015-2016.

O dilema dos impostos e o travamento do crédito

A carga tributária já está em 34% do PIB. “Não dá mais para aumentar imposto, a sociedade não aceita”, resume Tafner. Manoel adiciona: se o governo ceder à ala radical e não ajustar, o canal de crédito trava, os juros permanecem altos e a crise se acelera.

A escolha do próximo ministro da Fazenda tornou-se o termômetro decisivo. “É o vetor de todo o governo”, define Manoel. Um nome com credibilidade pode espalhar confiança; um nome alinhado apenas à base política pode selar o destino das contas públicas.

O que observar daqui para frente

Três sinais dirão se o risco se materializa ou se há espaço para negociação: a definição do comando da Fazenda, o primeiro relatório bimestral de avaliação de receitas e despesas, e a votação do Orçamento 2027 no Congresso. Se a base insistir na revogação do arcabouço sem contrapartida de receita, o mercado precificará um cenário de dominância fiscal. Para o investidor, a lição é clara: posicione-se para volatilidade cambial e de juros nos próximos trimestres.