Luís Eduardo Magalhães consolidou-se como o reduto mais fiel ao clã Bolsonaro na Bahia, registrando 61,6% dos votos válidos para Flávio Bolsonaro no segundo turno de 2026. O dado chama a atenção não apenas pela margem, mas pelo contraponto: Lula ampliou sua votação no município em 22,6% entre os turnos, reduzindo a diferença absoluta. O que explica essa dinâmica única no oeste baiano?
O padrão que se repete há três eleições
Não é um episódio isolado. Em 2018, Jair Bolsonaro venceu na cidade com 58,8% contra Fernando Haddad. Quatro anos depois, no embate contra Lula, o então presidente manteve 58,61% dos votos locais. Agora, em 2026, Flávio Bolsonaro eleva o patamar para 61,6%, contra 38,4% do petista.
Além de Luís Eduardo Magalhães, apenas Buerarema, no sul do estado, aparece no topo do ranking nas três disputas. Outras cidades como Teixeira de Freitas, Itapetinga e Itamaraju oscilaram na lista ao longo dos ciclos.
O segredo está no solo (e no PIB)
A explicação para o alinhamento político passa pela história econômica. Emancipado há apenas 26 anos, o município era distrito de Barreiras até março de 2000. O impulso veio na década de 1970, com a chegada de famílias do Rio Grande do Sul atraídas por terras baratas — o hectare custava o equivalente a R$ 20 na época.
Hoje, a realidade é outra:
- Valor da terra: Pode superar R$ 30 mil por hectare, dependendo da produtividade.
- PIB per capita (2023): R$ 107.118,26 — 6º maior da Bahia e 231º do Brasil (entre 5.570 municípios).
- População: Mais de 107 mil habitantes em área superior a 4 mil km².
O motor é o agronegócio de alta tecnologia. Construtoras, revendas de máquinas, restaurantes e comércio girando em torno da safra de grãos. O Bahia Farm Show, segundo maior evento do setor no país, acontece ali anualmente, reforçando o perfil empresarial da cidade.
O movimento silencioso nas urnas
Olhar apenas para o vencedor esconde um dado relevante. No primeiro turno de 2026, Lula recebeu 20.173 votos no município. No segundo, saltou para 24.739 — um crescimento de 22,6%. Flávio Bolsonaro foi de 38.496 para 39.688, alta de apenas 3,1%.
Resultado: a vantagem numérica caiu de 18.323 para 14.949 votos. Em termos proporcionais, o petista avançou mais que o adversário na reta final, mesmo perdendo de longe.
Conflitos fundiários e a geografia do voto
Analistas apontam que a concentração de grandes propriedades e os históricos conflitos por terra na região criam um eleitorado sensível a pautas de direita — defesa da propriedade privada, segurança no campo e menor intervenção estatal. Isso alinha produtores rurais e comerciantes locais ao discurso bolsonarista.
Mas a expansão da votação de Lula no segundo turno sugere que a máquina municipal e as transferências de renda federais ainda têm peso considerável entre a população urbana e trabalhadores do setor de serviços.
O que observar daqui para frente
Para investidores e empresários do agro, o recado é claro: Luís Eduardo Magalhães segue como polo de poder econômico conservador, mas com fissuras visíveis. A capacidade de Lula crescer 22% em duas semanas num território hostil indica que o eleitorado não é monolítico.
Fique atento à execução orçamentária do Plano Safra na região e às pautas de regularização fundiária no Congresso. São esses fatores — mais do que discursos — que ditarão se a vantagem de 61% se sustenta ou se a curva de crescimento do PT no município se acelera nas próximas disputas locais e estaduais.
