Economia

Crédito sobe 0,4% em setembro: spread de 35,5% pesa no bolso?

Gráfico mostra alta de 0,4% no crédito bancário em setembro com spread de 35,5%
Crédito sobe 0,4% em setembro, mas spread de 35,5% pressiona custo do empréstimo.

O estoque total de crédito bancário no Brasil avançou 0,4% em setembro na comparação mensal, segundo dados do Banco Central divulgados nesta quinta-feira (29). A expansão mantém a trajetória de alta, mas esconde um custo elevado para quem precisa de capital.

No segmento de recursos livres — onde as taxas são negociadas livremente entre bancos e clientes —, a inadimplência ficou em 6,6% e o spread bancário atingiu 35,5 pontos percentuais. Esses dois números explicam por que a oferta de dinheiro não se traduz automaticamente em fôlego para o caixa das empresas.

O que os números revelam sobre o custo real do dinheiro

O spread de 35,5 p.p. representa a diferença entre o que o banco capta e o que cobra do tomador final. Na prática, significa que a intermediação financeira continua cara, comprimindo a margem de negócios que dependem de capital de giro ou investimento.

A inadimplência de 6,6% em recursos livres, embora estável frente a meses anteriores, mantém o sinal de alerta ligado para o risco de crédito. Quando o calote sobe, as instituições endurecem a análise e elevam os juros, criando um ciclo que afeta especialmente médias e pequenas empresas.

Impacto direto: quem sente mais o aperto

Para o empresário, a combinação de spread alto e inadimplência resistente tem consequências práticas imediatas:

  • Capital de giro mais caro: alongar prazos ou renegociar dívidas exige garantias mais robustas.
  • Investimento adiado: projetos de expansão perdem viabilidade quando a taxa efetiva supera o retorno esperado.
  • Seletividade bancária: instituições priorizam grandes corporativos com rating elevado, deixando o “middle market” com opções escassas.

Esse cenário força gestores a buscar alternativas fora do sistema bancário tradicional, como fundos de crédito privado (FIDCs), debêntures ou antecipação de recebíveis.

Recursos livres vs. direcionados: a assimetria que importa

O dado agregado de 0,4% mistura duas realidades distintas. No crédito direcionado — habitacional, rural, BNDES —, as taxas são reguladas e o crescimento costuma ser mais previsível. Já nos recursos livres, a dinâmica segue a oferta e demanda de risco.

A expansão modesta do estoque total sugere que a demanda por crédito livre segue contida. Empresas endividadas preferem desalavancar a tomar novo dinheiro a custos atuais. Famílias, por sua vez, enfrentam compromisso de renda elevado, freando o consumo a prazo.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o ritmo do crédito nos próximos meses e merecem monitoramento constante:

  • Trajetória da Selic: qualquer sinal de manutenção ou alta da taxa básica tende a travar a concessão em recursos livres.
  • Inadimplência pessoa física: acima de 7% costuma disparar políticas de provisionamento mais agressivas pelos bancos.
  • Volume de captação via mercado de capitais: emissões de debêntures e CRIs/CRAs aliviam a dependência do spread bancário.

Enquanto o spread não ceder de forma estrutural, a expansão do estoque continuará sendo um termômetro mais de liquidez do que de vitalidade econômica. Para o tomador, a equação permanece: crédito existe, mas o preço cobrado pela intermediação ainda dita o ritmo dos negócios.