Economia

O fruto “invisível” que está roubando a cena da soja no MS

Pés de urucum com frutos vermelhos maduros em plantação no Mato Grosso do Sul
Urucum avança em pequenas propriedades de Ivinhema (MS) como alternativa à soja.

Enquanto a soja e o milho ditam o ritmo do PIB agropecuário, um fruto nativo avança silenciosamente nas entrelinhas das pequenas propriedades de Mato Grosso do Sul: o urucum. Em Ivinhema, a cultura já ocupa 300 hectares e promete redesenhar a economia da agricultura familiar, mas uma queda brusca no preço do quilo — de R$ 26 para R$ 13 em dois anos — testa a resiliência do negócio.

Por que o pequeno produtor está trocando o grão pelo pigmento

A resposta cabe no bolso e no calendário. Diferente das commodities de ciclo curto e alto custo de implantação, o urucum é perene: uma vez plantado, produz por anos sem replantio obrigatório. Para Valdir Benatti, há 11 anos na atividade com cinco hectares, a equação é simples.

“Hoje, comparando com outras lavouras, a de urucum está sendo mais fácil e dando mais resultado para a agricultura familiar”, resume. A cultura permite manejo com mão de obra da família e investimentos escalonados, vitais para quem não acessa linhas de crédito volumosas.

O segredo está na bixina — e no manejo invisível

O valor econômico reside nas sementes recobertas por bixina, pigmento vermelho base do colorau e de corantes naturais industriais. A demanda por insumos “clean label” (rótulo limpo) mantém o mercado aquecido, mas a produtividade não vem de graça.

O extensionista Valdeci Sebastião da Silva (Agraer) alerta: o mito da “planta rústica que não precisa de nada” quebrou a cara de muitos no início. A realidade técnica exige:

  • Correção de solo: calagem e adubação de base antes do plantio;
  • Nutrição dirigida: cama de frango pós-poda para vegetação; potássio na formação dos cachos;
  • Vigilância diária: percevejos perfuram frutos e dizimam a bixina se não controlados.

Benatti confirma a rotina: “Você tem que entrar na lavoura todo dia ou a cada dois dias. De repente a planta adoecendo, já entra com prevenção”. Bem feito, o manejo ainda recupera áreas degradadas, transformando passivo ambiental em ativo produtivo.

A montanha-russa dos preços: de R$ 26 ao chão de R$ 13

O ciclo clássico da oferta e procura bateu à porteira. Em 2024, o quilo pagou R$ 26, atraindo novos plantios. A colheita ampliada derrubou a cotação para R$ 17 no ano seguinte e, agora, para R$ 13. Para Alcemir Gonçalves, que cultiva em 12 hectares de solo cansado, a conta ainda fecha.

“Você tem que fazer uma cultura que exija menos calcário, menos adubo, e ir vivendo com aquilo que tem”, diz ele, mirando meta de 1 a 1,5 kg por pé nas próximas safras. A viabilidade, hoje, depende de produtividade alta para diluir o custo fixo.

Mecanização: o divisor de águas que chega devagar

O gargalo trabalhista — colheita manual de galhos, transporte e desgrane — inchou a folha de pagamento. A virada de chave está na chegada de colheitadeiras adaptadas, que recolhem e separam as sementes no próprio talhão.

Uma associação local já adquiriu o equipamento com recursos próprios. A expectativa é operar na próxima safra, cortando a dependência de diaristas e reduzindo o custo operacional final. Quem mecaniza primeiro larga na frente na margem líquida.

O que observar daqui para a frente

Três variáveis vão ditar se o urucum consolida-se como alternativa estrutural ou permanece nicho de oportunidade: a velocidade de adoção da mecanização nas propriedades de até 20 hectares; a estabilidade do preço da bixina no mercado internacional de corantes naturais; e a capacidade da assistência técnica em escalar o pacote tecnológico (solo + pragas + variedade) para além dos pioneiros de Ivinhema. Se o custo por quilo produzido cair abaixo de R$ 10 com máquinas, o fruto deixa de ser “alternativa” e vira concorrente direto da soja na margem do pequeno.