Economia

Dívida explode para 83% do PIB: o segredo que o mercado não conta sobre os juros…

Gráfico mostra dívida bruta do Brasil atingindo 83% do PIB com setas indicando alta acelerada desde 2020
Dívida brasileira dispara para 82,9% do PIB em menos de quatro anos, dividindo economistas sobre causas e soluções.

A dívida bruta do Brasil saltou de 71,7% para 82,9% do PIB em menos de quatro anos, mas o diagnóstico do mercado financeiro sobre a causa e a cura desse fenômeno está sendo contestado por economistas de peso. O que está por trás dessa divergência pode definir o rumo da sua empresa e dos seus investimentos nos próximos meses.

Enquanto a ala liberal pressiona por um corte profundo nas despesas públicas — a Forbes chegou a citar R$ 450 bilhões com base em estudos do IFI —, especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que a tesoura nos gastos sociais não só é desnecessária como ignora o verdadeiro motor do endividamento.

O vilão tem nome e sobrenome: juros reais de 8,45%

O Brasil ostenta a maior taxa de juros real do planeta, segundo levantamento da consultoria Moneyou. Nos últimos 12 meses, o custo para servir a dívida consumiu R$ 1,1 trilhão — o equivalente a 8,86% de tudo o que o país produz.

Só em 2026, os juros nominais responderam por 4,2 pontos percentuais da alta da razão dívida/PIB. Em termos práticos: sem essa conta, a trajetória seria estável ou até cadente.

Risco de calote? “Não existe”, dizem especialistas

A professora Simone Deos, do Instituto de Economia da Unicamp, é taxativa: não há risco de default nem de disparada inflacionária decorrente do endividamento atual. O motivo é estrutural.

  • A dívida é denominadada em reais, não em moeda estrangeira.
  • Nenhum país deixou de pagar dívida interna por falta de recursos na história.
  • O risco real surgiria se os títulos fossem em dólares.

Fernando Henrique Lemos Rodrigues, da UFRRJ, reforça: a proporção atual ainda está dentro de parâmetros internacionais aceitáveis para uma economia da complexidade do Brasil.

O clube dos endividados: Brasil não está sozinho

A comparação internacional desmonta a narrativa de emergência fiscal. Dados do FMI de 2024 mostram economias consolidadas com dívidas bem superiores:

  • Japão: 236% do PIB
  • Estados Unidos: 120%
  • Reino Unido: 101%
  • Itália: 135%
  • Canadá: 110%
  • Índia: 81,2%

Para Simone Deos, o problema não é o tamanho da dívida, mas para onde vai o dinheiro. “Uma parcela cada vez maior do PIB é transferida para rentistas via pagamento de juros”, resume.

Chantagem do mercado ou responsabilidade fiscal?

Rodrigues classifica a pressão por cortes como “chantagem” com objetivo claro: manter a Selic elevada. O argumento: o Banco Central condiciona a queda dos juros à geração de superávits primários — receitas maiores que despesas, excluindo o serviço da dívida.

Como o governo não consegue cortar o que o mercado pede sem atingir direitos sociais, a exigência vira justificativa para não baixar a taxa. “Um fundo de aplicação tem cerca de 90% da rentabilidade vindo da dívida pública”, explica o professor.

Inflação controlada, espaço para cortar juros

O IPCA roda dentro da meta. Para os economistas heterodoxos, não há fundamento técnico para manter o custo do dinheiro no patamar atual. O BC, porém, alega pressões inflacionárias e déficits primários.

Rodrigues aponta outro fator: juros baixos nos países desenvolvidos criam incentivo para manter taxas altas em emergentes como Brasil, México, Turquia, Rússia e Indonésia — o chamado carry trade.

Alternativas que ninguém debate na Faria Lima

Simone Deos propõe uma rota diferente: redução coordenada dos juros com atuação no câmbio. O Brasil tem US$ 350 bilhões em reservas — poder de fogo suficiente para segurar a volatilidade cambial, um dos principais gatilhos inflacionários internos.

“Uma queda dos juros é mais do que suficiente para estabilizar a dívida. Precisa de ação coordenada do BC no câmbio. No mais, discutir qualidade do gasto é válido, mas sem prejudicar políticas sociais”, afirma.

Rodrigues vai além: gasto público bem direcionado gera renda, emprego e investimento, que voltam como arrecadação. Fortalecer o orçamento social e o investimento em estatais seria, na visão dele, o caminho para o desenvolvimento — não o ajuste recessivo.

O que observar daqui para frente

O cabo de guerra está posto: de um lado, a pressão por superávits primários via cortes; do outro, a defesa de juros menores e política cambial ativa. Para o empresário e o investidor, três variáveis merecem monitoramento constante nas próximas reuniões do Copom e nos relatórios do IFI: a trajetória da Selic, o comportamento do dólar frente às reservas e a disposição política para enfrentar a regra de condicionamento do BC. Quem antecipar a quebra desse impasse sai na frente — seja na alocação de ativos, seja no planejamento estratégico do negócio.