Um Gulfstream G400 decolou de Puerto Iguazú às 23h30 de terça-feira (27) rumo a Miami, mas não seguiu o caminho lógico. A aeronave matrícula LV-JQW fez um arco deliberado pelo Paraguai, Bolívia, Peru e Equador — evitando a todo custo o espaço aéreo brasileiro.
A manobra não foi por acaso. Horas antes, o ministro Alexandre de Moraes havia determinado a apreensão de todos os passaportes do senador Flávio Bolsonaro (PL), impedindo sua saída legal do país.
O desvio que entrega a intenção
Dados do FlightRadar mostram que o jato executivo contornou a fronteira brasileira pela região do Pantanal, entrou no Paraguai e seguiu noroeste pela Bolívia. Em Santa Cruz de la Sierra, a rota virou norte, cruzando o Peru até pousar para reabastecimento no Equador.
O trajeto direto entre Puerto Iguazú e Miami tem cerca de 6.800 km. A rota escolhida adicionou centenas de quilômetros e pelo menos uma hora de voo extra.
Na sequência, o plano de voo previa sobrevoo do Panamá e de Cuba antes da chegada à Flórida.
O cerco judicial que precipitou a fuga
Na segunda-feira (26), Moraes cancelou “todos os passaportes emitidos em nome de Flávio Bolsonaro” e o proibiu de deixar o território nacional. A decisão surgiu um dia após a derrota de Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno presidencial.
O senador foi intimado pela Polícia Federal a entregar, em 24 horas:
- Passaporte comum
- Passaporte diplomático
- Eventuais passaportes de outras nacionalidades
A medida atende a investigação em andamento no Supremo Tribunal Federal.
Entrada na Argentina pela porta dos fundos
Segundo a Direção Nacional de Migrações argentina, Flávio, a esposa e as duas filhas entraram no país por via terrestre às 22h50 de terça (27) — quarenta minutos antes da decolagem do Gulfstream.
Imprensa local já noticiava na manhã de quarta que o senador estava em solo argentino desde a véspera, hospedado em Puerto Iguazú, cidade gêmea de Foz do Iguaçu separada apenas pela Ponte da Fraternidade.
O que a lei permite à Força Aérea
Caso a aeronave tivesse cruzado o espaço aéreo brasileiro, a FAB (Força Aérea Brasileira) poderia interceptá-la e ordenar pouso imediato. O procedimento está previsto no Código Brasileiro de Aeronáutica e em decretos de defesa aérea.
Ao evitar o território nacional, o voo escapou da jurisdição operacional da FAB — ainda que a ordem judicial de impedimento de saída permanecesse válida.
Cenários para os próximos dias
A permanência de Flávio Bolsonaro nos EUA abre frentes jurídicas e políticas. O STF pode solicitar cooperação internacional para seu retorno, enquanto a base aliada no Congresso deve questionar a legalidade da apreensão de passaporte diplomático.
Observe: pedidos de extradição ou deportação dependem de tratado bilateral e de tipificação penal compatível. O desfecho deve passar, necessariamente, pela avaliação do Ministério das Relações Exteriores e do Departamento de Justiça americano.
