O setor de energias renováveis projeta a volta dos grandes investimentos para 2027, condicionada à implementação de medidas que vêm sendo desenhadas nos últimos quatro anos. A expectativa depende de resolver gargalos que hoje travam a expansão e geram prejuízos bilionários.
Mas quais entraves precisam cair antes que a curva de crescimento se inverta?
O gargalo dos cortes de geração
O principal obstáculo técnico hoje tem nome: curtailment. Quando a rede atinge seu limite operacional, parques eólicos e solares são desligados, desperdiçando energia limpa e causando perdas que já chegam a 20-30% da geração potencial em algumas regiões.
Grandes geradores condicionam novos aportes à solução definitiva desse problema. Embora já exista previsão de ressarcimento retroativo para parte dos cortes, a classificação das restrições — especialmente as ligadas à sobreoferta — segue em discussão entre Aneel, ONS, Ministério de Minas e Energia e Congresso.
Para a CEO da Elera, Karin Luchesi, o tema evoluiu nos debates recentes, mas exige soluções técnicas imediatas para produzir efeito no médio prazo. “É insustentável do ponto de vista econômico”, resume.
Data centers: a nova demanda que exige planejamento
O presidente Lula associou diretamente as renováveis à atração de data centers em seu primeiro discurso após a reeleição. A lógica é clara: o Brasil tem energia limpa abundante para alimentar um setor que consome eletricidade em escala industrial.
André Salgado, CEO da EDF Power Solutions, confirma o potencial, mas alerta: não adianta concentrar tudo no Sudeste se a geração está no Nordeste e no Norte. O país precisa de planejamento de transmissão que acompanhe a geografia da nova demanda.
- Desafio: integrar grandes cargas no Nordeste/Norte sem sobrecarregar o eixo Sudeste.
- Oportunidade: data centers como âncora de contratos de longo prazo para novos parques.
- Risco: repetir o erro de instalar geração longe do consumo sem rede adequada.
Eólica: queda em 2026, curva crescente depois
A ABEEólica prevê retração nas instalações de parques eólicos em 2026. O lado positivo: anúncios recentes de Casa dos Ventos e Statkraft já aparecem “no chão de fábrica” da cadeia produtiva.
Segundo Elbia Gannoum, presidente da associação, a adição real de nova oferta eólica deve se concretizar a partir de meados de 2027. A projeção para 2028 já mostra a indústria em curva ascendente, com a “nova indústria brasileira” viabilizando 6 a 7 gigawatts por ano a partir de 2030.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar o ritmo da retomada: a velocidade das obras de transmissão (especialmente as ligações Nordeste-Sudeste), a definição regulatória sobre curtailment e a materialização dos contratos de fornecimento para data centers e indústria verde. Se esses pilares avançarem no primeiro semestre de 2025, a janela de 2027 torna-se crível. Caso contrário, o ciclo de postergação se estende.
Para investidores e empresários, o sinal prático é monitorar leilões de transmissão, resoluções da Aneel sobre restrições de geração e anúncios de grandes consumidores fixando demanda no Nordeste. São esses movimentos que transformarão o diagnóstico em implantação.
