No segundo turno de 2026, a imagem de um neto empurrando a avó em uma cadeira de rodas por uma rampa improvisada não foi exceção — foi a regra. Milhões de eleitores acima de 60 anos enfrentaram filas, degraus e calor para exercer um direito que a estrutura física do país ainda teima em dificultar.
O dado brutal: segundo o TSE, 28% do eleitorado tem 60 anos ou mais. Isso significa que quase 3 em cada 10 votos saíram de mãos que tremem, pernas que cansam e corpos que exigem dignidade logística.
O peso demográfico que ninguém ignora
O envelhecimento da base eleitoral não é projeção: é realidade consolidada. Em 2010, idosos eram 16% dos aptos a votar. Em 2026, superaram a casa dos 30 milhões. O crescimento supera a média da população em quase três vezes.
Esse bloco vota mais. A abstenção entre maiores de 70 anos — para quem o voto é facultativo — ficou em 18%, contra 29% na média geral. Quando vão às urnas, decidem.
Acessibilidade: a promessa que ficou no papel
A Lei 10.098/2000 exige acessibilidade em locais de votação. Vinte e seis anos depois, o TSE admite que apenas 62% das seções cumprem integralmente as normas. Rampas íngremes, banheiros inacessíveis e sinalização inexistente transformam o ato cívico em prova de resistência.
Em 2024, o tribunal lançou o programa “Voto Acessível” com verba de R$ 42 milhões para adaptações emergenciais. Relatório interno obtido via LAI mostra que 38% dos recursos não foram executados a tempo do primeiro turno.
O custo invisível da exclusão
Cada eleitor que desiste por barreiras físicas representa:
- Perda de representatividade em pautas de saúde, previdência e cuidado
- Sobrecarga do sistema de justificativa eleitoral
- Erosão da legitimidade do processo democrático
Estudo da FGV projeta que a plena acessibilidade elevaria a participação idosa em 4,7 pontos percentuais — cerca de 1,4 milhão de votos adicionais.
Soluções que já funcionam
Municípios como Florianópolis e Vitória adotaram votação em escolas de tempo integral, com elevadores, climatização e transporte gratuito no dia da eleição. A abstenção idosa caiu 31% e 27%, respectivamente.
O TSE planeja expandir o voto em trânsito para 500 cidades em 2028, permitindo que idosos votem perto de onde estão, não apenas onde moram.
O que observar daqui para frente
O calendário eleitoral de 2028 traz dois marcos: a obrigatoriedade de laudo de acessibilidade para todas as seções (prazo final: dezembro de 2027) e a promessa de urna com interface de áudio e libras integradas. Se o cronograma não derrapar, a eleição de 2030 pode ser a primeira em que votar não exige força física — apenas vontade política.
