O programa Move Brasil colocou 65,8 mil veículos nas ruas em quatro meses, absorvendo R$ 6,9 bilhões em crédito — apenas 23% dos R$ 30 bilhões ofertados. O número representa um terço da meta inicial de 200 mil unidades, mas esconde uma realidade mais complexa para quem vive ao volante.
Motoristas de aplicativo e taxistas estão divididos: o financiamento próprio virou opção real, mas o aluguel segue imbatível para quem roda quilometragem alta. A escolha certa depende de uma conta que poucos fazem na ponta do lápis.
O que os números mostram até agora
Dados do BNDES compilados até 26 de agosto revelam um ritmo acelerado frente ao mercado tradicional. Segundo a Fenabrave, o volume financiado supera em mais de três vezes a média histórica de 4,4 mil vendas mensais para o segmento. Em agosto, o programa havia liberado apenas R$ 3,44 bilhões (11,3% do teto), o que indica aceleração recente.
O Banco do Brasil lidera com folga: R$ 3 bilhões em operações e 28 mil clientes atendidos. Desses, 54% foram para veículos elétricos na categoria táxi e aplicativos. No recorte de motos, porém, o banco fica em quarto lugar — atrás de Yamaha, Honda e Caixa — com R$ 57 milhões em 2,5 mil contratos.
- Carros financiados: 65,8 mil unidades
- Crédito contratado: R$ 6,9 bilhões (23% do teto)
- Meta inicial do governo: 200 mil veículos
- Taxa máxima homens: 12,6% ao ano
- Taxa máxima mulheres: 11,5% ao ano
- Prazo máximo: 84 meses
- Teto de valor do veículo: R$ 200 mil (era R$ 150 mil até agosto)
Por que o aluguel ainda vence para muitos
Júnior Santana, 50 anos, roda 300 km por dia — podendo chegar a 600 km em viagens ao interior. Paga R$ 3,6 mil mensais de aluguel e recusa a compra do próprio veículo que dirige. “Eu só coloco combustível. Revisão, pneus, suspensão: tudo por conta da locadora.”
A lógica dele é matemática pura. Quem roda acima de 2,5 mil km por mês transfere para a locadora o custo variável de manutenção pesada — suspensão, transmissão, trocas de óleo encurtadas. No financiamento, todo esse risco cai no motorista, somado a seguro total, IPVA e depreciação.
Rogério Rodrigues, 44, fez o caminho inverso. Trocou o aluguel pelo financiamento usando benefícios de PCD e subiu de categoria no aplicativo. “Vai dar a mesma coisa no fim do mês”, admite. A diferença: ao quitar, sobra um ativo que pode entrar como entrada no próximo carro.
O gargalo que ninguém comenta: aprovação de crédito
Ser elegível no cadastro do governo não garante o empréstimo. Após a validação no sistema, o motorista ainda passa pela análise de cada banco — histórico, score, capacidade de pagamento. Dário de Abreu, 52, nem tentou: com nome negativado, sabe que a porta fecha na cara.
Levantamento da GigU mostra que 74,6% dos motoristas já têm veículo próprio (quitado ou financiado). Os 25,4% restantes usam carros alugados — justamente o público-alvo do programa. Mas se a inadimplência ou restrição cadastral bate na porta, o Move Brasil vira letra morta.
Mudanças de rota: programa se ajustou em tempo real
O governo ampliou as regras durante a execução. O teto do veículo subiu de R$ 150 mil para R$ 200 mil, o prazo esticou para 84 meses e híbridos flex (elétrico + álcool/gasolina) entraram no pacote. As taxas máximas seguem abaixo do praticado no varejo para esse perfil de risco.
O FGO (Fundo Garantidor de Operações) registra 21,8 mil contratos de motos, totalizando R$ 474 milhões. A modalidade atende motoboys e entregadores — categoria que pressiona por taxa mínima de R$ 10 por corrida e regulamentação trabalhista.
O que observar nos próximos meses
O Move Brasil virou linha permanente no portfólio do Banco do Brasil. A adesão dos bancos privados, porém, segue baixa — era uma das queixas do governo em agosto. Se a originação não diversificar, o programa corre o risco de concentrar risco em uma única instituição.
Para o motorista, a equação continua sendo: quilometragem mensal versus custo total de propriedade. Quem roda pouco e quer construir patrimônio ganha com o financiamento. Quem vive na estrada e quer previsibilidade de fluxo de caixa, o aluguel segue imbatível. A calculadora, no fim, é mais decisiva que a taxa de juros.
