Economia

Lula resiste à pressão do mercado e adia escolha da Fazenda: o que está por trás do silêncio

Presidente Lula em reunião no Palácio do Planalto, com expressão séria, adiando anúncio do Ministério da Fazenda
Lula mantém silêncio sobre escolha da Fazenda enquanto mercado pressiona por definição rápida.

O mercado financeiro exige um nome para o Ministério da Fazenda ainda esta semana, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sinaliza que não tem pressa. A demora não é novidade: em 2022, o anúncio de Fernando Haddad levou 40 dias; em 2002, Antônio Palocci foi confirmado 44 dias após a vitória.

Enquanto investidores cobram um “choque de credibilidade fiscal”, o Planalto vive o que auxiliares chamam de “ressaca cívica”. Lula, rouco há duas semanas, adiou até a comemoração do próprio aniversário para o fim de semana. A prioridade declarada pelo governo agora são três pautas legislativas — e o ajuste fiscal não está entre elas.

Por que o mercado não quer esperar

A tensão nas últimas sessões foi histórica. Na segunda-feira (26), o dólar registrou a maior alta diária desde 1999. Os juros futuros dispararam mais de 250 pontos-base em um único pregão. O Tesouro Nacional precisou intervir com força: recomprou R$ 14,8 bilhões em títulos prefixados e atrelados à inflação — a terceira maior operação diária da série histórica, iniciada em janeiro de 2000.

Nesta terça (27), houve correção. O dólar recuou e os juros futuros cederam após nova atuação do Tesouro, que anunciou recompra de IPCA+ e cancelou leilões de Tesouro Selic. A ação conjunta com o Banco Central conteve o “calor” imediato, mas a incerteza estrutural permanece.

Os nomes na mesa e o entrave político

Dois nomes ganham força nos bastidores: o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, e o vice-presidente Geraldo Alckmin. Um auxiliar presidencial afirma que Lula quer Fonteles no ministério. Há consultas informais sobre a legalidade de sua saída do governo estadual — a avaliação prevalente é que ele precisaria renunciar.

O discurso seria de “missão” atendendo a uma convocação presidencial. No Piauí, a narrativa seria de contribuição ao projeto nacional. Enquanto isso, o atual ministro Dario Durigan, interino, já preparou um cardápio de medidas para entregar ao próximo titular.

O que já está pronto para ser anunciado

A equipe econômica elaborou duas PECs (Propostas de Emenda à Constituição) que dependem apenas do aval de Lula para avançar:

  • PEC do congelamento ampliado: permite ao Executivo bloquear volume maior de recursos em caso de queda na arrecadação, mirando o centro da meta fiscal — e não apenas o piso da banda, como ocorreu nos últimos anos.
  • PEC do IPI estendido: prorroga a vigência do Imposto sobre Produtos Industrializados até a entrada em funcionamento do novo Imposto Seletivo da reforma tributária, que incidirá sobre bens prejudiciais à saúde e ao meio ambiente.

Um interlocutor próximo ao presidente avalia que essas medidas iniciais, ainda sob comando de Durigan, poderiam comprar tempo até a definição do novo ministro — que assumiria com um ponto de partida mais favorável.

O que observar daqui para frente

O governo monitora os ativos diariamente. A prioridade legislativa declarada — PEC da Segurança Pública, MP do fim das bets e PEC da tarifa zero no transporte público — revela onde o capital político será gasto primeiro. O pacote fiscal, embora preparado tecnicamente, aguarda sinal verde político.

Para o investidor e o empresário, a leitura prática é clara: a volatilidade deve persistir enquanto o nome da Fazenda não for oficializado e, principalmente, enquanto não houver clareza sobre a âncora fiscal do novo mandato. O silêncio de Lula não é vazio — é uma negociação em curso. Quem ler os sinais entre as linhas ganha tempo; quem exigir respostas imediatas corre o risco de tomar decisões com informação incompleta.