Internacional

Extradição de Zambelli: Itália julga prisões do Brasil nesta terça

Audiência de extradição de Carla Zambelli na Corte de Apelação de Roma com juízes italianos
Juízes italianos avaliam condições prisionais do Brasil em audiência decisiva sobre extradição de Zambelli.

Uma nova audiência na Corte de Apelação de Roma pode selar o destino da ex-deputada Carla Zambelli nesta terça-feira (27). O foco central não é a culpa ou inocência, mas se o sistema prisional brasileiro oferece condições dignas de saúde para recebê-la. A resposta do governo brasileiro a esse questionamento será o divisor de águas.

Marcada para as 11h30 no horário local (7h30 em Brasília), a sessão começou com atraso. Os juízes italianos exigem garantias concretas de que Zambelli terá assistência médica adequada para tratar fibromialgia e episódios de desmaio que alega sofrer. Se as garantias forem consideradas insuficientes, a extradição pode ser barrada de vez.

O pivô da decisão: saúde e celas brasileiras

Em julho, a Justiça italiana anulou a autorização prévia de extradição e mandou o processo de volta à estaca zero. O motivo não foi a tese de “perseguição política” defendida pelos advogados da ex-deputada — argumento que os magistrados italianos já descartaram.

O entrave é estritamente humanitário. A legislação italiana proíbe a entrega de um réu a um país onde haja risco real de tratamento desumano ou degradante. Por isso, a audiência de hoje gira em torno de laudos, relatórios e promessas formais sobre o atendimento médico dentro dos presídios nacionais.

  • Doenças alegadas: Fibromialgia e síncopes (desmaios).
  • Exigência italiana: Garantia escrita de tratamento contínuo e especializado.
  • Resposta do Brasil: Novas informações apresentadas nas últimas semanas detalhando a estrutura de saúde penitenciária.

Mas o efeito mais relevante aparece quando se olha para o outro processo que corre em paralelo na Itália.

Duas condenações, caminhos diferentes na Itália

Zambelli carrega duas condenações do Supremo Tribunal Federal (STF). A que motiva a audiência de hoje refere-se à perseguição armada a um homem nas ruas do bairro dos Jardins, em São Paulo, na véspera do segundo turno de 2022. A pena é de 5 anos e 3 meses por porte ilegal de arma e constrangimento ilegal.

Já o segundo caso — a invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com pena de 10 anos — já teve a extradição negada pela Corte Suprema de Cassação italiana em maio. Na ocasião, os magistrados italianos citaram “diversos elementos” que geram dúvidas sobre a imparcialidade objetiva do STF, mencionando especificamente a atuação do ministro Alexandre de Moraes como julgador e parte interessada.

Essa decisão anterior cria um precedente desconfortável. Embora os crimes sejam distintos, a argumentação sobre a estrutura do julgamento no Brasil ecoa nos bastidores da defesa.

O que o Brasil apresentou para reverter o quadro

O governo brasileiro, ciente do veto anterior, caprichou no dossiê enviado a Roma. Diplomatas e juristas trabalharam para demonstrar que o sistema prisional possui protocolos para doenças crônicas e que a ré não ficará desassistida.

A defesa de Zambelli, por sua vez, mantém o otimismo. Em nota, o advogado Eduardo Maurício afirmou que a recusa à extradição seria a “única medida compatível com a legislação e os tratados internacionais”. A expectativa da equipe jurídica é de que a negativa do caso CNJ influencie o desfecho deste processo.

Cenários para as próximas horas

Três desfechos são possíveis ao final da sessão ou nos dias subsequentes:

  • Extradição autorizada com salvaguardas: Zambelli é enviada ao Brasil mediante compromissos formais de tratamento de saúde.
  • Extradição negada por razões humanitárias: A Itália entende que as garantias não são suficientes.
  • Novo adiamento: Juízes pedem mais perícias ou documentos complementares.

O que observar daqui para frente: a decisão da Corte de Apelação não é necessariamente final. Tanto o Ministério Público italiano quanto a defesa podem recorrer à Corte de Cassação, alongando o processo por meses. Para o empresariado e investidores que monitoram a estabilidade institucional, o sinal mais relevante não é o destino individual da ex-deputada, mas o grau de confiança que o Judiciário italiano deposita nas garantias constitucionais brasileiras — um termômetro sensível para a reputação do país no exterior.