O Supremo Tribunal Federal determinou a extensão do horário de votação até as 19h no segundo turno das eleições de 2026, mas a decisão chegou tarde demais para milhares de eleitores. O resultado foi um cenário de portões fechados, declarações de comparecimento sem voto e uma assimetria gritante: quem votava em seções ainda abertas exerceu o direito; quem chegou minutos depois do fechamento, não.
A falha de comunicação entre STF, TSE e tribunais regionais expôs uma fragilidade operacional que pode ter consequências políticas e jurídicas nos próximos meses.
O que aconteceu na prática
A decisão do STF foi publicada no fim da tarde de 25 de outubro. Pouco depois, o TSE esclareceu que a prorrogação valia apenas para seções que não tivessem encerrado a votação. Na prática, a maioria já havia fechado às 17h em ponto.
Mesários e presidentes de seção relataram ter recebido a orientação para não fechar as urnas após já terem finalizado todos os procedimentos: boletins impressos, atas preenchidas, mídias lacradas e entregues.
- Rio de Janeiro: no Colégio Pensi (Flamengo), pelo menos 7 eleitores chegaram após as 17h e receberam declaração de comparecimento sem voto.
- Brasília: na Escola Classe 108 (Samambaia Sul), a urna foi fechada às 17h; a notícia da prorrogação chegou só depois.
- São Paulo: seção 309 da 6ª Zona Eleitoral ficou aberta até as 19h — recebeu 3 a 4 eleitores no horário extra.
- Campinas: três escolas visitadas por uma advogada estavam fechadas; duas pessoas foram impedidas de votar em cada uma.
Impacto direto: quem viajou para votar ficou sem voto
A contadora Manuela Tunas viajou do Uruguai para o Rio de Janeiro. O voo atrasou; ela pousou às 17h e correu à seção. “Consegui chegar a tempo para tentar votar, já que prorrogaram. Mas não consegui”, relatou. A estudante Gabriele Eduarda de Azevedo, também em trânsito, disse: “Já tinha aceitado que não ia votar. Quando saiu a nota das 19h, esperei que fosse respeitada.”
A aposentada Gina Cláudia Nunes, 70 anos, foi orientada a ir a outra escola — mas lá a urna já estava lacrada e sua zona não era aquela. “Frustração total. Votei no primeiro turno e queria votar no segundo também.”
Falha de comunicação ou falha de desenho?
O TRE-DF confirmou: as urnas foram fechadas às 17h em ponto, antes que a informação sobre a prorrogação chegasse aos mesários. Em Brasília, a presidente de seção Bruna Lourenço descreveu o dia como “tranquilo, votação rápida” — até o sinal tocar às 17h e a orientação ser finalizar tudo. “As informações demoraram muito a chegar. A gente ficou meio perdido.”
Em São Paulo, o mesário Lucas Suassuna foi avisado às 17h para “não fechar, ainda não está autorizado”. Às 17h10, confirmaram: ficar até as 19h. Resultado: movimento quase zero após as 16h40.
O que isso sinaliza para a governança eleitoral
A discrepância entre seções que ficaram abertas e as que fecharam cria um passivo de questionamentos jurídicos. Advogados já falam em “assimetria inconstitucional” no tratamento do eleitor. A advogada Amanda Vitorino, que percorreu escolas em Campinas, resumiu: “Na prática, não houve prorrogação.”
Para investidores e analistas de risco político, o episódio reforça dois vetores de atenção:
- Confiabilidade institucional: decisões de última hora sem protocolo de comunicação testado minam a previsibilidade do processo.
- Judicialização pós-eleição: ações questionando a validade de votos em seções com horários diferentes tendem a surgir nos tribunais regionais e no TSE.
O que observar daqui para frente
O TSE deve divulgar nos próximos dias o balanço oficial de quantas seções efetivamente estenderam o horário e quantos eleitores foram impedidos de votar por chegar após as 17h. Esse número será a base para eventuais recursos e para o debate sobre a necessidade de padronizar o horário de votação em todo o território nacional — hoje ainda sujeito a fusos locais e decisões pontuais.
Outro ponto: a declaração de comparecimento sem voto, emitida a quem chegou tarde, não garante a quitação eleitoral automática. O eleitor precisa apresentar justificativa posterior. Quem não o fizer em 60 dias fica com o título irregular — o que impede emissão de passaporte, posse em concurso público e obtenção de certidões.
Em resumo: a intenção de ampliar o acesso ao voto esbarrou na realidade operacional. O custo político dessa falha ainda será contabilizado.
