Cultura

O fim do mundo já aconteceu 16 vezes — e o Brasil sobreviverá a esta

Roma antiga em ruínas com visigodos ao fundo, simbolizando queda de impérios e polarização política brasileira
A queda de Roma em 410 d.C. prova que crises políticas não são o fim do mundo — o Brasil já sobreviveu a 16 "apocalipses".

Metade do país vai acordar na segunda-feira convicta de que o apocalipse chegou. A outra metade, de que a salvação venceu. Os dois lados estão errados — e a história prova isso há 1.600 anos.

As pesquisas mostram um dado brutal: 52,7% dos brasileiros já se afastaram de alguém por divergência política. Não é ideologia. É ruptura de laços.

Roma caiu em 410. O mundo não acabou.

No dia 24 de agosto de 410, visigodos invadiram Roma após 800 anos de muralhas intocadas. São Jerônimo, testemunha ocular, escreveu: “O mundo pereceu em uma cidade”. Soa familiar?

Os pagãos culparam os cristãos. Os cristãos culparam os pagãos. A polarização não nasceu no WhatsApp — nasceu no colapso do Império Romano.

O sermão que mudou a leitura da história

Santo Agostinho, bispo de Hipona, recusou o derrotismo. Em seu Sermão sobre a Queda de Roma, fez a pergunta que ecoa até hoje: “Roma enim quid est, nisi Romani?” — O que é Roma, senão os romanos?

A resposta desarma qualquer apocalipse: a cidade não são os palácios. São as pessoas. E pessoas se reconstruem.

Duas cidades, um mesmo território

Agostinho ensinou que toda sociedade carrega duas cidades sobrepostas:

  • Uma erguida no amor próprio, no egoísmo, na exclusão
  • Outra erguida no amor ao próximo, na solidariedade, no comum

Impérios caem. As duas cidades permanecem. A escolha de qual habitar é diária — e individual.

O dado que ninguém comenta nas redes

Entre os inimigos de hoje, escondem-se futuros concidadãos. A frase é de Agostinho, mas a estatística é contemporânea: mais da metade do eleitorado já rompeu laços pessoais por política. Isso não é opinião. É ferida aberta.

E feridas não cicatrizam com vitória eleitoral. Cicatrizam com decisão.

O conselho de um português na Bahia

Agostinho da Silva, filósofo luso-brasileiro, viveu a Segunda Guerra Mundial refugiado no Brasil. Seu conselho, dado em meio a bombas reais, não a narrativas de WhatsApp:

Busque em cada pessoa, povo e crença não o que existe de adverso, mas o que existe de comum e abordável. Lance estradas, não barreiras.

Ódio não constrói país. Nunca construiu. A história não registra uma única nação erguida sobre o rancor.

O que observar daqui para frente

O papa Leão XIV — primeiro pontífice agostiniano da história — costuma repetir: “Vivamos bem e os tempos serão bons. Nós somos os tempos: como somos nós, assim são os tempos”.

A segunda-feira chegará. A economia continuará exigindo decisões. Os contratos, as metas, as folhas de pagamento não esperam luto nem euforia. Quem entende isso primeiro retoma o controle — do negócio, da equipe, da própria narrativa.

A pergunta não é quem venceu. A pergunta é: qual das duas cidades você vai habitar amanhã?