Internacional

Europa em chamas: a ira que alimenta a extrema direita e ameaça a UE

Manifestantes europeus com cartazes por moradia e direitos, simbolizando crise social e ascensão da extrema direita
Onda de protestos na Europa expõe fratura social que fortalece partidos radicais e ameaça a União Europeia.

Uma onda de protestos varre o Velho Continente e expõe uma fratura perigosa: cidadãos de Portugal à Grécia saem às ruas exigindo moradia, educação e poder de compra, enquanto partidos radicais colhem os frutos do descontentamento. O centro político encolhe e a democracia liberal treme.

Não é apenas ruído de rua. É a materialização de um aviso que economistas e filósofos fazem há anos: quando a economia para de entregar prosperidade compartilhada, o contrato social se rompe.

O estopim: custo de vida e promessas quebradas

Nas últimas semanas, manifestações simultâneas eclodiram em pelo menos sete países europeus. Portugal, Espanha, França, Itália, Bélgica, Albânia e Grécia viram suas capitais tomadas por protestos que misturam reivindicações concretas — aluguéis impagáveis, salários estagnados, saúde precária — a uma desconfiança difusa nas instituições.

O gatilho imediato varia: em Lisboa, a habitação; em Paris, a reforma da previdência; em Atenas, o custo dos alimentos. O denominador comum, porém, é único. A sensação de que “o sistema” deixou de funcionar para a maioria.

Dados do Eurostat mostram que a inflação na zona do euro acumula alta de dois dígitos nos últimos dois anos, enquanto salários reais mal acompanharam a metade desse ritmo. O poder de compra médio recuou ao nível de 2015.

Quem lucra com a revolta?

Enquanto manifestações bloqueiam avenidas, as urnas antecipam um cenário radical. Três movimentos de direita radical lideram pesquisas ou já governam nas maiores economias do bloco:

  • Itália: Giorgia Meloni (Irmãos da Itália) comanda o governo desde outubro de 2022.
  • França: Marine Le Pen (Reunião Nacional) lidera intenções de voto para 2027 com margem de dois dígitos sobre o centro.
  • Alemanha: AfD (Alternativa para a Alemanha) vence regionais na Saxônia-Anhalt e lidera pesquisas nacionais pela primeira vez.

A revista The Economist estampou na capa “A agonia da Europa liberal”, alertando para o risco de um eixo Roma-Paris-Berlim hostil ao projeto europeu. Se os três se alinharem, a União Europeia como a conhecemos deixa de existir.

A armadilha do “solução milagrosa”

O estrategista James Carville resumiu em 1992: “é a economia, estúpido”. Hoje, a frase ganha versão atualizada: “é a ira, estúpido”. A revolta não busca alternativas institucionais; quer derrubar a ordem vigente.

Martin Wolf, comentarista-chefe do Financial Times, diagnosticou em 2023 a falência do capitalismo democrático. Quando a mobilidade social trava, a confiança migra dos governos para demagogos que prometem atalhos — fechamento de fronteiras, fim de regulações, confronto com “elites”.

Francis Fukuyama, em seu novo ensaio biográfico “O Último Homem”, revisita sua tese de 1992. O fim da história não veio; o que veio foi a revolta contra “horizontes achatados”. O populismo de direita e esquerda compartilha a mesma raiz: a recusa em aceitar que instituições liberais exigem paciência e compromisso.

O perigo não é ideológico — é estrutural

Partidos de sistema perdem eleitores não por falta de propostas, mas por falta de credibilidade. O ciclo vicioso se fecha: restrições orçamentárias (impostas por regras fiscais da UE) limitam ação governamental → serviços pioram → eleitorado pune o centro → radicais ganham espaço → instabilidade política afasta investimento → economia desacelera.

A Bélgica ilustra o impasse: 18 meses sem governo federal pleno entre 2019 e 2020. A Albânia, fora da UE, vê protestos diários contra corrupção e pobreza. O padrão se repete nas fronteiras e no centro.

O que observar nos próximos meses

Três variáveis ditarão se a Europa estanca a hemorragia democrática ou acelera a fragmentação:

  • Política monetária do BCE: cortes de juros a partir de junho podem aliviar hipotecas e investimentos — ou chegar tarde demais.
  • Pacote de habitação da Comissão Europeia: prometido para o primeiro trimestre, testará se Bruxelas entrega resultados visíveis.
  • Eleições europeias de junho: o termômetro real. Avanço de grupos eurocéticos no Parlamento pode travar legislação climática, digital e de defesa.

Para empresários e investidores, o recado é claro: instabilidade política virou variável macroeconômica. Cadeias de suprimento, regulações setoriais e acesso a fundos europeus dependerão de quem ocupar as cadeiras de poder em Paris, Berlim e Roma. Acompanhar pesquisas eleitorais deixou de ser hobby de cientista político — virou gestão de risco.