Cultura

O Brasil rachou ao meio: o que Santo Agostinho ensina sobre sobreviver ao “fim do mundo”

Mapa do Brasil rachado ao meio simbolizando divisão política extrema com silhueta de Santo Agostinho ao fundo
A polarização que divide o Brasil ecoa a queda de Roma e os ensinamentos de Santo Agostinho sobre resistir ao caos.

Metade do país acordará na segunda-feira governada por um candidato em quem nunca votaria. A divisão não é retórica: pesquisas mostram rejeição simétrica entre os dois polos, com 52,7% dos eleitores admitindo já ter cortado laços pessoais por divergência política.

O cenário lembra 410 d.C., quando Roma caiu após 800 anos invicta. São Jerônimo decretou: “O mundo pereceu em uma cidade”. A diferença? Na antiguidade, pagãos culpavam cristãos. Hoje, cada lado aponta o dedo para o outro.

Por que a sensação de apocalipse paralisa decisões

Santo Agostinho, testemunha da queda romana, escreveu o “Sermão sobre a Queda de Roma” para combater o derrotismo. Seu argumento central: quem confunde a própria cidade com o mundo vive derrotas políticas como se fossem o fim da história.

Antes das instituições, a cidade está nas pessoas. “Roma enim quid est, nisi Romani?” — o que é o Brasil senão os brasileiros? A pergunta desloca o foco do resultado eleitoral para a capacidade de reconstrução cotidiana.

O custo oculto da polarização nos negócios e na sociedade

Dados concretos revelam o impacto tangível:

  • 52,7% dos brasileiros romperam relações por política
  • Dois polos com rejeição praticamente idêntica
  • ~20% do eleitorado não compareceu ou votou branco/nulo

Essa fragmentação não fica no campo afetivo. Ela contamina ambientes de trabalho, conselhos de administração, cadeias de fornecimento e decisões de investimento. Quando a confiança interpessoal erosiona, o custo de transação sobe.

Duas cidades, um mesmo território

Agostinho distinguia duas cidades sobrepostas: uma movida pelo amor egoísta a si mesmo, outra pelo amor ao próximo. Impérios baseados no primeiro modelo são frágeis; suas quedas, porém, abrem espaço para renovação.

“Entre os inimigos, escondem-se futuros concidadãos.” A frase antecipa uma realidade prática: parceiros comerciais, talentos e mercados estão do outro lado da trincheira ideológica. Ignorá-los é estratégia de retração.

O que Jó e um filósofo português têm a ensinar ao líder brasileiro

A referência a Jó não é decorativa. Perdeu tudo, recusou amaldiçoar e desistir. A resiliência não nega a dor — ela recusa a paralisia.

Agostinho da Silva, vivendo na Bahia durante a Segunda Guerra, propôs método oposto ao muro: buscar em cada pessoa, povo e crença “não o que existe de adverso, para que se levantem barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz”.

O que observar daqui para frente

O papa Leão XIV — primeiro pontífice agostiniano da história — costuma repetir: “Vivamos bem e os tempos serão bons. Nós somos os tempos: como somos nós, assim são os tempos”.

Para o empresário e o investidor, a leitura prática é clara: o próximo ciclo não será definido por quem venceu a eleição, mas pela capacidade de setores produtivos, sociedade civil e lideranças locais de reconstruírem pontes que a campanha queimou. O ódio não entrega resultado. A história — de Roma a 2022 — prova que só o que é compartilhado sustenta crescimento.