Cultura

O “fim do mundo” chegou na urna: o que 410 d.C. ensina aos líderes hoje

Urna eletrônica brasileira cercada por ruínas romanas simbolizando polarização política e risco corporativo
A urna como palco do "fim do mundo": lições de 410 d.C. para a instabilidade política atual.

Metade do país acordará na segunda-feira convicta de que o mundo acabou. A outra metade, de que enfim começou. No meio, 52,7% dos brasileiros já romperam laços pessoais por divergências políticas — um dado que deveria constar em todo relatório de risco corporativo.

A sensação de apocalipse não é nova. Tampouco é exclusividade brasileira. A diferença é que, hoje, ela afeta diretamente a previsibilidade dos contratos, a retenção de talentos e a disposição para investir.

O erro de estratégia que Roma cometeu em 410 d.C.

Quando os visigodos invadiram Roma após 800 anos de muralhas intactas, São Jerônimo decretou: “O mundo pereceu em uma cidade”. A leitura era geopolítica, mas o diagnóstico era psicológico: a elite romana confundia a própria sobrevivência com a continuidade da civilização.

Santo Agostínio, observando os escombros, propôs uma auditoria mais rigorosa. Seu “Sermão sobre a Queda de Roma” aponta o vírus cognitivo: quem confunde a cidade terrena (o partido, o governo, a bolsa) com a cidade humana (o mercado, a sociedade, o time) vive toda derrota como extinção.

A pergunta que ele deixa para o conselho de administração de qualquer nação — ou empresa — é direta: Quid est Roma, nisi Romani? O que é o Brasil, senão os brasileiros? O que é sua empresa, senão as pessoas que nela decidem diariamente?

Duas cidades, um mesmo CNPJ

Agostínio descreve duas cidades sobrepostas no mesmo território. Uma erguida no amor próprio levado ao extremo do desprezo pelo outro. A outra, no amor ao próximo — no caso corporativo, no stakeholder value real.

  • Cidade do “nós contra eles”: Decisões baseadas em retaliação, curto prazo, destruição de valor para punir o adversário.
  • Cidade do “nós com eles”: Decisões baseadas na perenidade, na construção de pontes onde antes havia trincheiras.

A história mostra que impérios construídos na primeira categoria são frágeis. As quedas, nesses casos, não são o fim — são a única chance de renovação estrutural. “Entre os inimigos, escondem-se futuros concidadãos”, escreveu o bispo de Hipona. No vocabulário de M&A: no atrito de hoje pode estar a sinergia de amanhã.

O custo oculto da fragmentação

O levantamento de que mais da metade da população rompeu relações por política não é apenas sociologia. É métrica de social capital em queda livre.

Redes de confiança encolhidas aumentam o custo de transação. Dificultam joint ventures, travam sucessões familiares, inviabilizam conselhos consultivos plurais. Quando o ódio vira critério de governança, o deal flow seca.

Agostinho da Silva, o filósofo português que fez da Bahia seu laboratório, resumiu a receita de recuperação em plena Segunda Guerra: buscar em cada pessoa, povo e crença “não o que existe de adverso, para que se levantem barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz”.

O que separa resiliência de ruína

A referência bíblica de Agostínio a Jó é cirúrgica para o momento: perdeu tudo, recusou amaldiçoar e desistir. A virtude não está em negar a perda, mas em recusar a paralisia.

Líderes que leem o cenário atual apenas como ameaça perdem a janela de reorganização. Quem enxerga a reestruturação forçada pelo “fim do mundo” alheio ganha tempo de execução enquanto o mercado ainda lambe as feridas.

O que observar daqui para frente

A polarização não vai desaparecer no próximo balanço trimestral. Mas a forma como sua organização a internaliza define se ela vira atrito ou insumo.

Monitore três indicadores nos próximos 90 dias:

  • Índice de diversidade cognitiva nas contratações e promoções;
  • Taxa de resolução de conflitos internos sem escalada hierárquica;
  • Proporção de parcerias estratégicas firmadas com players de “lado oposto” do espectro político.

Como lembrava Agostinho: “Vivamos bem e os tempos serão bons. Nós somos os tempos: como somos nós, assim são os tempos”. A variável de controle não está na urna. Está na reunião de diretoria de segunda-feira.