Uma onda de fúria varre as ruas de Lisboa, Paris, Berlim e Roma, mas o motim vai muito além do custo do aluguel ou da conta do supermercado. O Velho Continente, referência histórica de estabilidade, enfrenta uma erosão silenciosa do seu centro político. O que está em jogo não é apenas a gestão de crises setoriais, mas a sobrevivência do modelo democrático-liberal que sustenta o ambiente de negócios europeu.
A revista The Economist resumiu o cenário em capa recente: a “agonia da Europa liberal”. Governos centrais, apertados por regras fiscais rígidas, perdem espaço para alternativas radicais que prometem soluções imediatas. O eleitorado, cansado de esperar resultados que não chegam, migra para as franjas.
O avanço das franjas e o xeque-mate institucional
Os números não mentem. Na Itália, Giorgia Meloni já comanda o governo. Na França, Marine Le Pen lidera as intenções de voto para a disputa presidencial. Na Alemanha, a AfD (Alternativa para a Alemanha) consolida-se como primeira força nas pesquisas nacionais e venceu eleições regionais estratégicas, como na Saxônia-Anhalt.
Esse trio representa um cenário de pesadelo para a arquitetura da União Europeia. A fragmentação parlamentar torna ingovernáveis as grandes economias do bloco, travando reformas essenciais — da união bancária à política energética comum — e elevando o prêmio de risco soberano.
- Itália: Governo de coalizão de direita no poder.
- França: Extrema-direita favorita nas pesquisas para 2027.
- Alemanha: AfD em 1º lugar nas pesquisas nacionais; vitória regional na Saxônia-Anhalt.
O contrato social quebrado: por que o centro ruiu
A raiz do problema não é ideológica, é material. Martin Wolf, comentarista-chefe do Financial Times, diagnosticou em 2023 a falência do “capitalismo democrático”. A promessa central — de que o crescimento geraria prosperidade amplamente compartilhada — rompeu-se.
Quando a economia deixa de entregar mobilidade social e segurança, a confiança migra dos governos para o próprio sistema democrático. Desigualdade e insegurança econômica convertem-se em revolta política, criando o caldo de cultura perfeito para demagogos autoritários capturarem instituições enfraquecidas.
A revolta contra horizontes achatados
Francis Fukuyama, em seu ensaio recente O Último Homem, retoma a tese de O Fim da História para alertar: o motor da história é a luta por reconhecimento. O extremismo atual — seja à direita ou à esquerda — nasce da sensação de “horizontes achatados”.
O cidadão europeu médio não vê mais um futuro melhor que o do pai. A ira populista resultante não busca construir instituições alternativas que corrijam falhas; ela quer derrubar a ordem existente. E, segundo Fukuyama, essa destruição já percorreu metade do caminho.
O que observar daqui para frente: implicação prática
Para o investidor e o gestor, o recado é claro: a volatilidade política deixou de ser “ruído de fundo” para virar variável central de precificação de ativos europeus. Observe três vetores nos próximos trimestres: a capacidade de formação de maiorias estáveis nos parlamentos nacionais, a execução orçamentária sob novas regras fiscais da UE e a resposta do BCE a choques de oferta gerados por instabilidade regulatória. A estabilidade que o capital exige depende, hoje, de uma aposta arriscada: a de que a ira nas ruas não virará lei no parlamento.
