Justiça

Deputado do PL contesta eleição e rompe com vice-governador: o que vem depois?

Deputado Thomaz Henrique (PL-SP) em vídeo nas redes sociais contestando resultado eleitoral e rompimento com vice-governador Felício Ramuth
Deputado estadual Thomaz Henrique (PL) anuncia rompimento com vice-governador Felício Ramuth e contesta eleição presidencial.

O deputado estadual eleito Thomaz Henrique (PL-SP) publicou vídeo nas redes sociais nesta segunda-feira (26) rejeitando o resultado do segundo turno presidencial e atacando o vice-governador Felício Ramuth (MDB). A postura expõe uma fratura interna na base que apoiou a chapa bolsonarista em São Paulo e levanta dúvidas sobre como a oposição ao governo federal se organizará na Alesp a partir de 2025.

Sem apresentar provas de fraude, Henrique declarou ter “dúvidas acerca do processo eleitoral brasileiro” — mesma narrativa usada pelo partido para pedir anulação de votos em urnas eletrônicas, pedido rejeitado pelo TSE por falta de indícios. A fala alinha o parlamentar à ala mais radical do PL, mas o coloca em rota de colisão com aliados de primeira hora.

O racha com Felício Ramuth

Horas antes do vídeo de Henrique, Ramuth afirmou confiar no sistema eleitoral e questionou a estratégia do PL de contestar o horário estendido de votação apenas após a derrota. A resposta do deputado foi direta: chamou o vice-governador de traidor por “virar as costas” ao partido depois de subir em palanque e pedir votos na mesma chapa.

O episódio revela tensão entre dois perfis da direita paulista: o pragmatismo institucional de Ramuth — ex-prefeito de São José dos Campos reeleito com 68% dos votos — e o discurso de confronto permanente adotado por Henrique. Para analistas, a divisão enfraquece a capacidade de articulação da oposição na Assembleia Legislativa, onde o PL terá a maior bancada a partir de fevereiro.

Autonomia paulista: bandeira ou cortina de fumaça?

No mesmo vídeo, Henrique retomou proposta de “maior autonomia” para São Paulo. Disse que não defende separação, mas quer estudar PECs para ampliar competências legislativas estaduais frente à União. A Constituição, porém, veda emendas que abolam a forma federativa (art. 60, §4º) e define a República como “união indissolúvel” (art. 1º).

Juristas ouvidos pela reportagem classificam a iniciativa como simbólica: qualquer mudança real exigiria apoio de três quintos do Congresso em dois turnos — cenário improvável para pauta identificada com separatismo. Ainda assim, o tema mobiliza nicho eleitoral fiel e serve para diferenciar o parlamentar no plenário.

Trajetória atípica chama atenção

Henrique, 32 anos, tem histórico incomum para o atual posicionamento. Ex-filiado ao PSOL, declarava voto em Luciana Genro (2014) e lia Marx na juventude. A guinada conservadora ocorreu nos últimos anos, aproximando-o do deputado federal Eduardo Bolsonaro e do influenciador Pavanato. Eleito com 94.312 votos, foi o 15º mais votado para a Alesp.

  • Partido: PL (eleito pela legenda de Jair Bolsonaro)
  • Votação: 94.312 votos (15º lugar na Alesp)
  • Base eleitoral: Vale do Paraíba e região bragantina
  • Posse: 1º de fevereiro de 2025

O que observar nos próximos meses

A posse em fevereiro testará se Henrique manterá o tom de confronto ou buscará espaço na negociação legislativa. Dois movimentos valem acompanhar: a formação de blocos na Alesp — se o PL racha ou fecha questão — e a reação do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que até agora evitou endossar questionamentos ao resultado presidencial. A resposta dele pode ditar o ritmo da oposição paulista nos quatro anos que se iniciam.