Uma pesquisa recente revela que, para 50% dos brasileiros, a carteira assinada deixou de ser sinôncio de “melhorar de vida”. O dado expõe uma fratura social profunda, mas a raiz do problema não está no desejo do trabalhador — está em quatro décadas de estagnação da produtividade que ninguém resolveu.
Enquanto o debate eleitoral foca em promessas de curto prazo, a economia real segue travada. Entender esse mecanismo é essencial para quem toma decisão de investimento ou gere negócios no país.
O retrato da fratura: empreendedorismo por necessidade
O levantamento do instituto Meio mostra um abismo entre eleitorados opostos. Entre quem vota em Flávio Bolsonaro (PL), 62,3% associam ascensão social a ter o próprio negócio. No eleitorado de Lula (PT), o percentual cai para 33,5%.
O inverso ocorre com o contrato CLT: 65,4% dos eleitores de Lula o veem como o caminho ideal, contra apenas 30,2% do lado bolsonarista. A síntese é brutal: metade da população não enxerga mais o emprego formal como objeto de desejo.
- 62,3% (eleitores Bolsonaro) querem negócio próprio
- 65,4% (eleitores Lula) preferem carteira assinada
- 30,2% (eleitores Bolsonaro) veem CLT como ideal
O diagnóstico invisível: 40 anos de produtividade parada
Essa desistência do contrato formal é o sintoma da “grande derrota da Nova República”, nas palavras do economista Samuel Pessôa. Dados do Observatório da Produtividade Regis Bonelli (FGV Ibre) mostram que, de 1985 a 2025, a produtividade da hora trabalhada no Brasil cresceu míseros 0,8% ao ano.
No mesmo período, os EUA avançaram 2% ao ano. Em números acumulados: 40% de ganho aqui contra 123% lá fora. Mesmo cortando a primeira década perdida (1985-1994), o recorte de 1995 a 2025 entrega apenas 0,9% ao ano — 31% no total.
Sem ganho de eficiência, o salário real não sobe de forma sustentável. O trabalhador percebe, racionalmente, que a CLT não garante mais a mobilidade de outrora.
Dois gargalos que travam o país
A literatura econômica aponta dois determinantes próximos para essa paralisia. O primeiro é a qualidade da escola pública fundamental. Habilidades cognitivas e socioemocionais — formadas nos bancos escolares — explicam metade da diferença de produtividade entre nações ricas e pobres.
Um detalhe cruel: para 90% dos alunos, o maior problema da escola pública hoje é a indisciplina dos próprios colegas. Não há tecnologia ou currículo que resolva sozinho um ambiente onde não se aprende.
O segundo gargalo é institucional. Legislação tributária, trabalhista, regulação e Judiciário funcionam como um filtro: em países ricos, eles fazem o capital e o trabalho migrarem das empresas ineficientes para as eficientes. No Brasil, ocorre o oposto.
O subsídio à ineficiência que virou política de Estado
Regimes especiais — MEI, Simples Nacional e Lucro Presumido — foram desenhados para simplificar. Na prática, tornaram-se subsídios permanentes para micro e pequenas empresas de baixa produtividade que não crescem, não inovam e não pagam impostos proporcionais.
Como a economia geral é medíocre, a resposta individual racional é buscar o empreendedorismo de subsistência. A política, por sua vez, amplia os benefícios para esse segmento. Cria-se um ciclo vicioso: mais subsídio à ineficiência, menor produtividade média, menor atratividade do emprego formal.
O que observar daqui para a frente
O tom da campanha eleitoral atual não sinaliza ruptura. Não há proposta consistente para enfrentar a indisciplina escolar em escala, nem para reformar a tributação de forma a parar de premiar o pequeno ineficiente.
Para o empresário e o investidor, a lição prática é clara: não conte com expansão do consumo baseada em ganho real de salário via CLT nos próximos anos. O mercado de trabalho formal seguirá pressionado, a informalidade qualificada (PJ/MEI) continuará crescendo e a alocação de capital tenderá a premiar quem consegue driblar a burocracia — não quem produz mais por hora trabalhada.
Quem entender essa dinâmica e ajustar sua estratégia de contratação, precificação e alocação de capital para um cenário de “baixa produtividade estrutural” sairá na frente quando — e se — o ciclo finalmente virar.
