Dois quilômetros separaram as duas maiores manifestações políticas da véspera da eleição em Brasília — distância que, nas ruas, virou um abismo simbólico. De um lado do Eixo Monumental, vermelho; do outro, amarelo. O que aconteceu no meio do caminho expõe rachaduras que nenhum resultado de urna conseguirá fechar sozinho.
O cenário não é apenas eleitoral. É um termômetro de risco institucional, de coesão social e, por consequência, de previsibilidade para quem decide investir, contratar ou planejar no país nos próximos quatro anos.
O fato: duas multidões, um mesmo hino, zero diálogo
No sábado (24), véspera do segundo turno, a Esplanada dos Ministérios recebeu atos simultâneos pela reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pela candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). A concentração petista ocupou as imediações do Museu Nacional; a bolsonarista, a Torre de TV. Trios elétricos, jingles, Hino Nacional — e, no corredor entre os dois pontos, provocações mútuas sempre que fluxos se cruzavam.
Estimativas oficiais de público não foram divulgadas até o fechamento desta edição, mas a Polícia Militar do DF confirmou efetivo reforçado e monitoramento por drones ao longo de todo o trajeto. Não houve registro de confrontos físicos, apenas tensão verbal.
Perfis que explicam mais que pesquisas de opinião
A reportagem ouviu eleitores de ambos os lados. O que emerge não é polarização abstrata — são trajetórias pessoais que moldam expectativas econômicas e institucionais distintas:
- Hanna Brandini, 33, arquiteta (Lula): “Campanha marcada por desinformação. Os desentendimentos podem ser momentâneos.” Votou pela primeira vez em grande ato.
- Leonardo, 36, bacharel em direito (Flávio): “Desfiz muitas amizades. Me senti discriminado nos últimos anos. Espero que o vencedor tenha o respeito de quem perdeu.”
- Lana (29) e Dayane (32), moradoras de Sobradinho II (Flávio): Evitam política no dia a dia. Vivem em “bolha de direita”. Levaram bandeira do Brasil.
- Samuel (26) e Julia (34), irmãos de Lana e Dayane: Foram ao ato, mas sem camisa amarela. “Democracia deve ser respeitada por quem ganhar e por quem perder. Alternância pacífica.”
- Maria Eduarda, 18, estudante (Flávio): Primeiro voto. Influenciada pelo pai e pela igreja evangélica na Ceilândia. Pretende biomedicina.
- Laila e Melissa, 16, gêmeas (Lula): Primeiro voto. Pautas: ensino público gratuito e desarmamento. “Não concordamos com mais armas nas ruas.”
- Murilo da Cunha, 73, economista aposentado (Lula): Compara ao Diretas Já (1980) e Caras-Pintadas (1992). Em cadeira de rodas por doença rara. “Nunca vi nada igual. Me afastei de família e amigos.”
- José Pedro (61) e Ana Carolina (48), ex-bolsonaristas 2018 (Lula): Mudaram após filho adolescente quase morrer de covid em UTI. “Negacionismo não pode ameaçar mais ninguém.” Também se afastaram de familiares.
- Nathália (25), Eduardo (28) e Sophia (28), universitários/advogada (Lula): Votam por proteção a pessoas negras e LGBTQIA+. Defendem regulação urgente de redes sociais: “A democracia pede isso.”
O que isso sinaliza para o ambiente de negócios
Três vetores saltam aos olhos de quem lê o cenário com óculos de gestão de risco:
- Ruptura de redes de confiança: Relatos repetidos de afastamento familiar e amistoso indicam capital social erodido. Isso afeta consumo, contratação, formação de parcerias e até sucessão em empresas familiares.
- Demanda por regulação digital: Jovens de ambos os lados — mas sobretudo no campo progressista — cobram regras para plataformas. Qualquer governo eleito enfrentará pressão legislativa imediata sobre o Marco Civil da Internet e responsabilização de big techs.
- Expectativa de “respeito ao perdedor”: É a frase mais citada por eleitores de Flávio Bolsonaro. Se não houver sinalização clara de institucionalidade nos primeiros 100 dias, a resistência organizada (sindicatos, associações empresariais, bancadas) pode travar pautas econômicas.
Além de Brasília: o mapa nacional da véspera
A mobilização não ficou restrita ao Planalto Central. O dia 24 registrou atos em pelo menos 14 capitais e municípios de médio porte:
- Maceió (AL): Corrida de rua pró-Lula às 5h13 na orla.
- Fortaleza (CE): Corrida matinal + ato de surfistas, nadadores e remadores no mar (“A Praia é Nossa”).
- Goiânia (GO), Cuiabá (MT), Dourados (MS), Vitória (ES): Atos pró-Flávio Bolsonaro pela manhã.
- Rio de Janeiro: Lula em Copacabana (manhã) e Flávio na Barra da Tijuca (tarde).
- São Paulo: Lula na Avenida Paulista (tarde).
- Belo Horizonte (MG): Flávio em motocarreata (manhã).
Os próprios candidatos circularam — estratégia clássica de “visualização de força” para mobilizar eleitores indecisos e garantir comparecimento no domingo (25). O TSE já emitiu zerésima das urnas e confirmou sistemas auditados.
O que observar daqui para frente
O resultado das urnas, seja qual for, não dissolve a cena descrita acima. Três variáveis determinarão a temperatura do primeiro semestre de 2027:
- Discurso da vitória: Se o eleito adotar tom de “união nacional” com gestos concretos (nomes técnicos em pastas-chave, manutenção de marcos regulatórios, sinalização a governadores de oposição), a tensão arterial cai. Se vier com “mandato para transformar tudo”, a resistência se organiza.
- Reação do perdedor: Reconhecimento imediato + discurso de “oposição responsável” desarma radicais. Contestação judicial prolongada ou silêncio estratégico alimenta incerteza.
- Primeira pauta econômica: Orçamento 2027, arcabouço fiscal e reforma tributária (ainda em transição) serão o teste real de governabilidade. O mercado precificará não o vencedor, mas a capacidade de entregar previsibilidade.
Enquanto isso, a arquiteta Hanna e o bacharel Leonardo seguem a 2 km de distância — metaforicamente, cada vez mais. A distância física é curta. A institucional, depende do que acontecer a partir das 19h deste domingo.
