Economia

Niterói gasta R$ 9 mi em “radar de tiros”: tecnologia prende 7, mas especialistas duvidam do retorno

Sensor acústico ShotSpotter instalado em poste na zona norte de Niterói com mapa de disparos ao fundo
Sistema ShotSpotter monitora 10,36 km² em Niterói e detectou 1.290 disparos no primeiro ano de operação.

Niterói investiu R$ 9 milhões em sensores acústicos que localizam disparos em 20 segundos e já levaram à prisão de sete suspeitos em uma única operação. Mas o histórico de um projeto semelhante abandonado no Rio levanta dúvidas sobre a escalabilidade do modelo.

O sistema ShotSpotter entrou em operação em maio de 2025 cobrindo 10,36 km² nas zonas Norte e Sul. No primeiro ano, registrou 1.290 disparos distribuídos em 314 episódios — números que expõem a intensidade do confronto entre Terceiro Comando Puro e Comando Vermelho.

Onde a tecnologia mira e o que ela captura

Três bairros concentram 70% dos alertas: Engenhoca (341 tiros), Barreto (292) e Fonseca (274). O Centro aparece com 87 ocorrências, seguido por Santa Rosa (55) e Icaraí (49). A distribuição não é aleatória — reflete a geografia da disputa territorial.

O fluxo técnico funciona em camadas: sensores detectam o estampido → IA faz triagem inicial → especialistas em acústica validam número de atiradores, tipo de arma e sequência dos disparos → alerta chega ao CISP → PM é acionada. Tempo total: 80 segundos.

Resultado prático: nove alertas, prisões e apreensões

Segundo a prefeitura, nove alertas gerados este ano resultaram em prisões e apreensões. O caso mais recente ocorreu na comunidade do Santo Cristo, no Fonseca: um alerta levou policiais do 12º BPM a um homem morto com radiotransmissor ao lado. Buscas nas redondezas prenderam sete homens em imóveis abandonados. Apreenderam três pistolas, dinheiro e drogas.

  • Tempo médio até alerta no CISP: 20 segundos
  • Tempo até acionamento do batalhão: 60 segundos
  • Taxa de confirmação em campo: 97%
  • Área coberta: 10,36 km² (zonas Sul e Norte)
  • Contrato: 3 anos, renovável e expansível

O fantasma de 2011: por que o Rio abandonou o mesmo conceito

Não é a primeira vez que o Estado testa sensores de tiro. Em 2011, a capital fluminense instalou equipamentos importados dos EUA em 6 km² da Zona Norte. Custo: R$ 1,3 milhão. Duração: menos de três anos. Motivo oficial: alto custo.

A diferença agora, segundo o secretário Gilson Chagas, está na maturidade da IA. “O sistema hoje diferencia fogos de artifício brasileiros dos americanos para filtrar corretamente. É raro um falso positivo.”

O contraponto técnico: dados enviesados e custo-benefício questionável

Pablo Nunes, diretor do CESeC, aponta duas falhas estruturais. Primeiro: o sistema só “vê” onde está instalado, criando mapa incompleto da violência. Segundo: experiências internacionais mostram resultado frágil. Atlanta, Charlotte e Nova Orleans desligaram o ShotSpotter após constatarem que não reduziu disparos nem melhorou coleta de provas.

“A tecnologia não pode ser compreendida, por si só, como solução”, resume Nunes. “É preciso perguntar quais problemas estão na origem da violência armada.”

O que observar nos próximos trimestres

O contrato prevê ampliação, mas Chagas já sinaliza que não há objetivo de cobrir o município inteiro — “recurso público deve ser usado com critério”. Para investidores e gestores públicos, três variáveis decidirão se o modelo vira referência ou repete 2011:

  • Manutenção da taxa de 97% de confirmação em escala maior
  • Redução efetiva de episódios (não apenas detecção) nas áreas monitoradas
  • Custo por prisão efetiva comparado a métodos tradicionais de patrulhamento

O próximo balanço trimestral da prefeitura, previsto para março, trará os primeiros indicadores de tendência — não apenas volume de alertas, mas desfechos processuais das prisões originadas pelo sistema. É ali que o discurso de “operações qualificadas” encontrará sua prova de fogo.