A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) afirma que a Petrobras não será privatizada, mas agentes de mercado apostam na continuidade do programa de desinvestimentos visto no governo anterior. O plano de governo registrado no TSE não menciona a estatal, e a assessoria econômica evita detalhar o futuro da companhia.
Sinais contraditórios da equipe econômica
Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia e assessor próximo de Flávio, declarou em vídeo que “não existirão privatizações” para Petrobras, Banco do Brasil e Caixa. A fala contrariou declarações anteriores de Adriano Pires, coordenador de energia da campanha e cotado para comandar a estatal ou o MME.
Pires defendeu em agosto a capitalização da Petrobras nos moldes da Eletrobras — redução da participação da União a posição minoritária, sem poder de controle. Citou Vale e Eletrobras como exemplos de grandes empresas com capital pulverizado. Disse ainda que a decisão caberia ao Congresso, não ao plano de governo.
O que o plano de governo diz — e o que omite
O documento entregue à Justiça Eleitoral promete “estimular a modernização do refino rumo ao aproveitamento do petróleo nacional” e “favorecer a produção nacional de fertilizantes”. Em nenhum momento define se a Petrobras será a executora ou se o setor privado assumirá a dianteira. Tampouco indica fontes de financiamento.
Não há menção à política de preços dos combustíveis. A promessa genérica de redução de impostos não vem acompanhada de mecanismos ou cronograma.
Herança do governo Jair Bolsonaro: o que já foi vendido
Entre 2019 e 2022, a Petrobras vendeu ativos considerados não estratégicos:
- BR Distribuidora (hoje Vibra Energia) — saída da distribuição de combustíveis
- Liquigás — distribuidora de GLP
- Quatro das oito refinarias colocadas à venda, incluindo Mataripe (BA), segunda maior do país
- Campos de petróleo de menor porte e gasodutos
O plano original previa concentração da atuação no Sudeste e Centro-Oeste. Metade das refinárias permanece na estatal.
Preços: a incógnita que move o mercado
Executivos do setor que se reuniram com assessores de Flávio relatam silêncio sobre a política de preços. “Escutaram mais do que falaram”, resume uma fonte. No governo anterior, a Petrobras acompanhou cotações internacionais até a guerra na Ucrânia disparar os valores em 2022. Houve então pressão presidencial para segurar preços e redução temporária do ICMS, empurrando o custo para o sucessor.
Atualmente, a estatal pratica preços abaixo do mercado internacional, argumentando que o petróleo caro garante margem para amortecer os combustíveis.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o rumo da Petrobras em um eventual governo Flávio: a nomeação para o MME e a presidência da estatal, a disposição do Congresso para aprovar capitalização ou privatização, e a definição clara — ou não — da regra de preços. Enquanto o discurso oficial veta privatização, o histórico de desinvestimentos e as falas de assessores-chave mantêm o mercado atento a movimentos de venda de ativos pontuais. A ausência de diretrizes no plano de governo deixa aberta a janela para surpresas nos primeiros meses de gestão.
