Justiça

Operação bloqueia R$ 250 milhões, fuga escavada e trem fatal: o que abalou a Zona da Mata

Operação bloqueia R$ 250 milhões em Ubá, fuga em Muriaé e trem fatal em Juiz de Fora na Zona da Mata
Três crises simultâneas abalam a Zona da Mata: corrupção, sistema prisional e segurança ferroviária.

Uma operação conjunta do Ministério Público e da Polícia Civil bloqueou cerca de R$ 250 milhões em bens de investigados por supostas fraudes em contratos da Prefeitura de Ubá. No mesmo fim de semana, uma tentativa de fuga cinematográfica foi descoberta em Muriaé e um trem matou um homem em Juiz de Fora. Três episódios distintos que expõem fragilidades em gestão pública, sistema prisional e segurança viária na região.

Os desdobramentos ainda estão no começo, mas a escala dos valores bloqueados e a coordenação entre órgãos de controle sugerem que o caso de Ubá pode se estender por meses. O que conecta esses eventos não é a geografia, mas o padrão: falhas de fiscalização que só vêm à tona quando o dano já está feito.

O epicentro em Ubá: números que chamam a atenção

Batizada de Operação Epicentro, a ação cumpriu 101 mandados judiciais entre os dias 19, 21 e 22 de outubro. O foco são contratos firmados durante a calamidade pública decretada após as enchentes de fevereiro de 2024 — período em que regras de licitação são flexibilizadas para agilizar contratações emergenciais.

Entre os objetos de investigação estão:

  • Construção do Centro Administrativo, iniciada em 2022
  • Contratos de limpeza pública e manejo de resíduos sólidos
  • Possíveis fraudes em processos licitatórios e lavagem de dinheiro

Autoridades, ex-gestores, servidores e empresários estão entre os investigados. O bloqueio de R$ 250 milhões em bens é uma das maiores medidas cautelares já vistas na Zona da Mata e sinaliza a gravidade das suspeitas de organização criminosa.

Como isso afeta quem faz negócios na região

Para fornecedores e prestadores de serviço, o cenário impõe cautela redobrada. Contratos vigentes com a administração municipal podem sofrer questionamentos judiciais ou retenções de pagamento enquanto as apurações avançam. Empresas que participaram de certames nos últimos dois anos devem revisar sua documentação e compliance interno.

O Ministério Público não detalhou quais contratos específicos estão sob suspeita além dos citados. A prefeitura, por sua vez, não se manifestou sobre o mérito das acusações até o fechamento desta reportagem. Mas o volume de mandados indica que a investigação mapeou uma rede de relacionamentos, não apenas atos isolados.

A fuga que não aconteceu: buraco sob o chuveiro

No domingo (20), policiais penais da Penitenciária Doutor Manoel Martins Lisboa Júnior, em Muriaé, notaram um detento sujo de terra durante a conferência matinal. A inspeção na cela revelou um buraco escavado sob o chuveiro do banheiro e grande volume de terra acumulada — indícios de trabalho contínuo e coordenado.

O pavilhão foi esvaziado, os envolvidos identificados e as visitas suspensas por tempo indeterminado. A Sejusp abriu procedimento administrativo e os presos poderão responder criminalmente. O episódio expõe falhas na vistoria rotineira de celas e na detecção de ferramentas ou materiais de escavação.

Quando a passagem de nível vira armadilha

Também no domingo (20), por volta das 14h, um carro foi atingido por uma composição da MRS Logística na Avenida Francisco Valadares, bairro Poço Rico, em Juiz de Fora. O veículo foi arrastado pelos trilhos. O passageiro entrou em parada cardiorrespiratória e morreu no local apesar das manobras de reanimação. O motorista foi levado em estado grave ao HPS.

Segundo a concessionária, o maquinista acionou buzina, sinais luminosos e freios de emergência ao avistar o carro atravessando a linha férrea. As circunstâncias — se houve falha na sinalização, imprudência do condutor ou problema mecânico — serão apuradas.

O que observar daqui para frente

Três frentes merecem acompanhamento nas próximas semanas. Em Ubá, a divulgação dos nomes dos investigados e o destino dos contratos em execução definirão o impacto econômico imediato. Em Muriaé, a apuração interna deve revelar se houve facilitação externa ou falha estrutural na unidade. Em Juiz de Fora, o laudo pericial sobre a passagem de nível pode embasar ações civis públicas por melhorias na sinalização — há histórico de acidentes no mesmo trecho.

Para quem atua na região, a lição prática é única: a fiscalização preventiva, seja em contratos públicos, unidades prisionais ou infraestrutura ferroviária, custa uma fração do que a reparação do dano depois que ele vira manchete.