Educação

Você não vai acreditar: 59% das escolas ignoradas no plano de climatização

Escola estadual em Piracicaba sem ar-condicionado, excluída do plano de climatização do governo de SP
Escola da região de Piracicaba não contemplada no plano de climatização estadual até 2027.

O governo de São Paulo excluiu 37 das 63 escolas estaduais da região de Piracicaba do plano de climatização que prevê ar-condicionado até 2027. A omissão atinge 59% das unidades e levanta dúvidas sobre os critérios técnicos — e os riscos — por trás da decisão.

O buraco no plano que ninguém explica

A Secretaria da Educação (Seduc) afirma priorizar “áreas mais quentes pelo estado”, mas não detalhou por que a Unidade Regional de Piracicaba — que abrange seis municípios, 29.322 alunos e 2.100 professores — ficou majoritariamente de fora. Das 63 escolas, apenas 26 receberão os equipamentos nos próximos três anos.

Para gestores e investidores, o recorte expõe uma lacuna de infraestrutura que não se resolve apenas com aquisição de aparelhos. Escolas fora do programa contam, em média, com três ventiladores por sala. A orientação oficial para dias de calor intenso resume-se a reduzir aulas de Educação Física, pausas para hidratação e evitar exposição ao sol entre 10h e 16h.

Por que o ar-condicionado sozinho é uma armadilha

Especialistas em arquitetura bioclimática da Unicamp alertam: instalar splits sem preparar o envelope do edifício cria problemas novos. Letícia Neves e Eduarda Chaga explicam que a climatização eficiente exige estratégias passivas — aquelas que não consomem energia — antes de qualquer sistema ativo.

O risco imediato é a qualidade do ar. Splits convencionais apenas recirculam o ar interno, elevando concentrações de CO₂ em salas densamente ocupadas. O resultado: sonolência, fadiga, queda de rendimento e maior transmissão de doenças respiratórias. A norma técnica NBR 16401 estabelece taxas mínimas de renovação de ar baseadas na densidade de ocupação, mas a Seduc não confirmou se as instalações previstas cumprem o requisito.

O padrão FDE que ignora o clima local

As escolas estaduais seguem manuais da Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), que padronizam salas de 7,20 m × 7,20 m em fileiras duplas com corredor central. O modelo privilegia economia construtiva e modularidade, mas despreza orientação solar e ventilação cruzada.

Janelas altas voltadas ao corredor deveriam garantir fluxo de ar; na prática, professores as fecham por ruído acústico. Em uma unidade pesquisada, a direção chegou a vedá-las em reforma. Sem ventilação natural funcional, o ar-condicionado deixa de ser complemento e vira única barreira — frágil, dependente de energia e, se mal dimensionado, insalubre.

  • Isolamento térmico de coberturas — barreira primária contra ganho de calor
  • Fachadas em cores claras — reduzem absorção de radiação solar
  • Sombreamento externo — arborização ou brises antes que o calor atinja a pele do prédio
  • Ventilação noturna — expurga calor acumulado quando a temperatura externa cai

Essas medidas, segundo as pesquisadoras, aumentam a resiliência da edificação: se houver queda de energia, o ambiente mantém condições toleráveis por mais tempo. Um ativo relevante num cenário de eventos climáticos extremos e instabilidade no fornecimento elétrico.

O risco invisível do CO₂ nas salas de aula

Neves é taxativa: split sem renovação de ar é “totalmente insalubre”. Duas saídas técnicas existem. Na primeira, mantém-se o split e instala-se ventilador dedicado exclusivamente à troca de ar. Na segunda, adota-se sistemas multi-split ou centrais que já incorporam renovação no projeto. Em ambos, a contratação de projetista de climatização é obrigatória — não opcional — para atender à NBR 16401.

A ausência de resposta da Seduc sobre conformidade normativa abre espaço para questionamentos: haverá fiscalização? Os contratos preveem comissionamento com medição de vazão de ar externo? Para o setor privado, a resposta define o tamanho do mercado de retrofit e adequação que surgirá nos próximos anos.

O que o investidor deve monitorar daqui para frente

Três vetores desenham o cenário de curto prazo. Primeiro: a pressão por cumprimento da NBR 16401 em instalações públicas deve gerar editais de adequação — não apenas compra de equipamentos. Segundo: a revisão dos manuais da FDE para incorporar regionalização climática vira pauta inevitável; quem antecipar soluções padronizadas por bioma ganha vantagem competitiva. Terceiro: a conta da inação. Escolas sem climatização passiva nem ativa adequada terão custos ocultos — absenteísmo, queda de aprendizagem, judicialização por condições insalubres.

O fechamento de 2027 não é meta final; é marco de conformidade. Quem olhar só para a compra de splits perde o contrato de engenharia que vem depois.