A PPG, gigante de revestimentos avaliada em US$ 24 bilhões, projeta triplicar as vendas para data centers em 2024, impulsionada pela corrida armamentista da inteligência artificial. O carro-chefe é uma tinta cinza, técnica e invisível aos olhos humanos, que se expande como um marshmallow tostado sob fogo extremo para impedir que o aço derreta. O boom, no entanto, escancara uma cadeia de suprimentos improvável que está lucrando silenciosamente com a infraestrutura da IA.
O efeito “marshmallow” que protege bilhões em servidores
No “bunker” da PPG em Pittsburgh, pesquisadores submetem painéis de aço a maçaricos industriais. A camada de um milímetro do revestimento Steelguard 951 inchou para quase dez milímetros, formando uma crosta preta isolante. O ar preso nessa expansão impede que o calor atinja a estrutura metálica, garantindo que o edifício não colapse durante um incêndio nas salas de servidores.
Essa proteção passiva é obrigatória em instalações que abrigam milhares de GPUs gerando calor intenso. Sem ela, o risco de amolecimento do aço compromete a integridade do ativo mais valioso das big techs: a capacidade de processamento contínuo.
Por que as big techs compram tinta “sem graça” às toneladas
Jenn Solcz, vice-presidente da divisão de revestimentos de proteção da PPG para as Américas, resume o cenário: “Nunca vi um boom tão grande quanto este”. A expectativa de triplicar a receita desse segmento contrasta com o crescimento consolidado de 7% da companhia no trimestre recente (US$ 4,5 bilhões).
A concorrente Sherwin-Williams confirma a tendência. A CEO Heidi Petz relatou crescimento de dois dígitos na faixa intermediária na divisão equivalente, creditado à velocidade das obras. “Velocidade importa”, disse ela, referindo-se ao ciclo de construção de data centers — cerca de um terço do tempo de uma infraestrutura tradicional.
- Custo por obra: entre US$ 3 milhões e US$ 8 milhões apenas em revestimentos.
- Participação: fatia pequena do orçamento total, mas crítica para certificação e seguro.
- Volume: paredes, tetos, estruturas, racks, pisos e exteriores.
Cinza claro, médio e escuro: a estética que ninguém vê
Não há paletas de design nos data centers. A PPG oferece três tons de cinza; a escolha é puramente funcional. “A estética não está entre as principais preocupações”, afirma Solcz. Esses galpões são habitados por máquinas, não pessoas. A ausência de apelo visual, paradoxalmente, libera a engenharia para focar 100% na performance térmica, antiestática e anticorrosiva.
Da loja de varejo para o “bunker” de inovação B2B
A transformação da PPG explica a agilidade atual. Fundada em 1883 como fabricante de vidro, a empresa vendeu em 2024 toda a operação de varejo nos EUA e Canadá — incluindo a marca Glidden — para focar no mercado corporativo (B2B). Hoje, o portfólio atende automóveis, aviões, latas de bebida e, cada vez mais, infraestrutura crítica.
Executivos evitam o termo “tinta”. Vendem “sistemas de revestimento”: primer de aderência, camada funcional (fogo, ferrugem, condutividade) e acabamento. O centro de inovação a 21 km da sede, onde fica o bunker, é onde esses sistemas são validados sob condições extremas antes de irem para a obra.
Pacote “chave na mão” para construção em tempo recorde
Como os cronogramas são agressivos, a PPG montou equipes dedicadas: uma para negociar direto com Microsoft, Google e Amazon; outra para influenciar arquitetos e engenheiros antes da especificação dos materiais. Em abril, em feira setorial em Washington, a empresa lançou um pacote integrado para data centers:
- Proteção passiva contra incêndio (Steelguard);
- Primers anticorrosão para fundações e tubulações;
- Pisos condutivos/antistáticos (desenvolvidos especificamente para DCs e fábricas de chips);
- Revestimentos de blindagem eletromagnética (EMI);
- Isolamento térmico para tubulações de água gelada (Pitt-Therm 909), evitando condensação sobre equipamentos elétricos.
Ao todo, a empresa reveste mais de 75 componentes diferentes dentro de um data center, de carcaças de câmeras a chillers.
EUA concentram a demanda, mas gargalos ameaçam o ritmo
Mais da metade das oportunidades de venda está nos Estados Unidos, país que abriga cerca de 5.500 data centers — aproximadamente dez vezes o segundo colocado, segundo o AI Index Report de Stanford. Atualmente, o segmento representa um “percentual de dígito baixo” em duas divisões da PPG, mas a VP sênior Amy Ericson prevê crescimento “várias vezes superior” ao de outros mercados de infraestrutura.
Dois obstáculos concretos surgem no horizonte:
- Energia: projetos adiados pela falta de transformadores e capacidade de subestações;
- Licenciamento social: oposição local crescente ao consumo de água e eletricidade.
Ericson é direta: a resolução desses conflitos cabe às big techs e às concessionárias, não aos fornecedores de revestimento.
O que observar daqui para frente
Para investidores e gestores de cadeia de suprimentos, três variáveis ditam o ritmo desse mercado “invisível”: a velocidade de conexão de novas subestações à rede, a capacidade da indústria de transformadores de escalar entrega e a tolerância regulatória para zoneamento de data centers. A tinta cinza continuará sendo comprada por atacado — o gargalo não é a formulação química, mas a eletricidade que faz os servidores ligarem.
