Saúde

R$ 120 mi da Saúde no BRB: A manobra que o TCDF investiga agora

TCDF investiga transferência de R$ 120 milhões do Fundo de Saúde para o BRB
Tribunal de Contas apura uso de verbas do SUS para dar liquidez ao banco

O Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) abriu procedimento para apurar a transferência de R$ 120 milhões do Fundo de Saúde para o BRB. A suspeita central: recursos federais do SUS teriam sido usados para dar liquidez ao banco em meio ao rombo bilionário deixado pelo Banco Master.

Em tese, o dinheiro deveria ficar sob custódia do Banco do Brasil. A movimentação, ocorrida em setembro, acendeu o alerta pela inversão de prazos: o caixa saiu antes da ordem bancária oficial. O desfecho pode ditar sanções a gestores e revelar a real saúde financeira da instituição.

O fio da meada: cronologia invertida e CDB de um dia

A representação do deputado Gabriel Magno (PT) detalha uma sequência atípica. No dia 21 de setembro, os R$ 120 milhões deixaram a conta da Saúde no Banco do Brasil e entraram no BRB. A ordem bancária que autorizava a despesa, porém, só foi registrada dois dias depois, em 23 de setembro.

No intervalo, a quantia foi aplicada em CDB de liquidez diária, rendendo 95% do CDI — cerca de R$ 57,8 mil em 24 horas. Para o parlamentar, a operação não visava rentabilidade, mas “direcionar recursos vinculados da saúde à geração de liquidez para o BRB”.

  • Origem: Fundo Nacional de Saúde (recurso federal carimbado).
  • Destino inicial: Conta do BRB, não do agente custodiante (Banco do Brasil).
  • Operação: Aplicação em CDB overnight (dia 21) com recompra no dia 22.
  • Justificativa oficial posterior: “Regularização e adequada identificação em futuras conciliações” (ofício de 22/09).

Por que isso muda o jogo para quem acompanha o BRB

O banco carrega um passivo oculto desde a aquisição de R$ 12,2 bilhões em carteiras fraudulentas do Banco Master. A estimativa de provisionamento necessário beira R$ 8,8 bilhões, podendo ser maior. Há mais de um ano a instituição não publica balanços auditados.

O GDF tenta costurar um empréstimo de até R$ 6,6 bilhões com o FGC (Fundo Garantidor de Créditos) para capitalizar o banco. A União recusou ser fiadora. Foi nesse vácuo que a governadora Celina Leão (PP) mencionou “soluções técnicas” para resolver a crise. A transferência do Fundo de Saúde, para Magno, é a materialização dessa solução.

A defesa: folha de pagamento ou engenharia financeira?

A Secretaria de Economia do DF afirma que o repasse serviu ao pagamento da folha de servidores da Saúde, que supera R$ 897 milhões mensais. Segundo a pasta, a programação financeira mistura fontes — Fundo Nacional, Fundo Constitucional e Tesouro Distrital — e a operacionalização ocorre via BRB.

A análise técnica do TCDF, contudo, sustenta que a retirada dos recursos da conta específica do SUS no Banco do Brasil, a aplicação em CDB e o registro tardio da ordem bancária levantam “questões relevantes sobre custódia, rastreabilidade, segregação, finalidade e observância da sequência dos atos financeiros”.

O que observar daqui para frente

A Secretaria de Saúde tem cinco dias para apresentar documentos. Se a tomada de contas especial confirmar irregularidade, gestores podem ser multados e obrigados a ressarcir o erário. Mas o impacto sistêmico vai além:

  • Captação do FGC: A aprovação do empréstimo de R$ 6,6 bi depende de aval de risco que agora inclui esse questionamento de governança.
  • Transparência do BRB: A pressão por divulgação de resultados financeiros atrasados aumenta.
  • STF: A ação da governadora para forçar a União a garantir a dívida ganha novo capítulo probatório.

Para investidores e gestores de risco, o caso funciona como termômetro: a segregação de recursos públicos está sendo testada em tempo real. A resposta do TCDF nas próximas semanas dirá se a “solução técnica” era ponte para o socorro definitivo ou desvio de finalidade passível de sanção.