As ações da Hermès abriram em queda de quase 6% nesta quinta-feira, ampliando a perda acumulada no ano para 39%, após a marca revelar que o crescimento de 4,3% no terceiro trimestre mascara uma fratura interna perigosa. A receita totalizou 4,1 bilhões de euros, abaixo da projeção de 5,2% dos analistas. Mas o número que realmente assusta os investidores está nas entrelinhas.
A fratura entre bolsas e o resto do portfólio
A divisão de artigos de couro — motor histórico da casa — acelerou 10,8% no período. Em contrapartida, a segunda maior divisão, a de roupas e acessórios, recuou 2%. Relógios caíram 6% e sedas avançaram apenas 1,4%.
Para James Grzinic, analista da Jefferies, a divergência atingiu níveis sem precedentes: as bolsas voltaram a acelerar, mas o atraso das demais categorias se agravou drasticamente. Essa assimetria levanta dúvidas sobre a capacidade da marca de sustentar seu valuation premium sem um portfólio equilibrado.
- Artigos de couro: +10,8% (principal motor de receita)
- Roupas e acessórios: -2% (segunda maior divisão)
- Relógios: -6%
- Sedas e tecidos: +1,4%
China e Oriente Médio: o peso da geopolítica
A Ásia-Pacífico (ex-Japão) estagnou, refletindo o fluxo reduzido nas lojas chinesas. Executivos admitiram que moda, relógios e calçados foram as categorias mais atingidas no país. No Oriente Médio, a receita caiu 4,5%, impacto direto do conflito em curso entre Estados Unidos e Irã.
Enquanto isso, a Europa (ex-França) surpreendeu com alta de 9,5%, impulsionada pela nova flagship na Bond Street, em Londres. As Américas mantiveram solidez com expansão de 8,8%. O diretor financeiro, Eric du Halgouët, afirmou que outubro segue as mesmas tendências, mas reforçou a confiança no potencial chinês no médio e longo prazo.
Valuation sob questionamento geral
O tombo de 39% nos papéis da Hermès em 2026 não é um caso isolado. A LVMH recua 39% no ano e a Kering, dona da Gucci, perde 29%. A exceção é a Richemont, com alta de 1,5%, sustentada pela joalheria da Cartier e Van Cleef & Arpels.
O valor de mercado da Hermès encolheu para 135 bilhões de euros. A LVMH, líder do setor, já havia alertado para uma temporada difícil ao reportar crescimento de apenas 1% no terceiro trimestre, prejudicada justamente por moda e couro. O setor inteiro parece precificar um “novo normal” de demanda mais fraca.
O que vem pela frente: efeito halo e alta-costura
A gestão aposta na estreia da estilista Grace Wales Bonner na moda masculina e no lançamento da alta-costura em 2027 para gerar um “efeito halo” sobre as divisões frágeis. Axel Dumas, CEO, manteve a perspectiva de médio prazo de crescimento rentável a câmbio constante, mas o mercado mostrou ceticismo imediato.
O que observar daqui para frente
O foco deve se voltar para três variáveis: a capacidade de a China reverter a queda de tráfego sem estímulos agressivos, a velocidade com que as novas coleções masculinas e a alta-costura contaminam positivamente as vendas de pronto-vestir e, por fim, se a divergência entre couro e não-couro se estabiliza ou continua a se alargar. Enquanto as Birkin e Kelly sustentarem a receita sozinhas, o múltiplo da ação seguirá sob pressão.
